Espiritualidade

Espiritualidade (74)

Quarta, 23 Março 2011 19:15

Papa Bento XVI - celebração das cinzas

Escrito por Trídia Criação

Quarta-feira de Cinzas

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, marcados pelo austero símbolo das Cinzas, entramos no Tempo da Quaresma, iniciando um itinerário espiritual que nos prepara para celebrar dignamente os mistérios pascais. As cinzas benzidas, impostas sobre a nossa cabeça, são um sinal que nos recorda a nossa condição de criaturas, que nos convida à penitência e a intensificar o compromisso de conversão para seguir cada vez mais o Senhor.

A Quaresma é um caminho, é acompanhar Jesus que sobe a Jerusalém, lugar do cumprimento do seu mistério de paixão, morte e ressurreição; recorda-nos que a vida cristã é um «caminho» a percorrer, e que consiste não tanto numa lei a observar, quanto na própria pessoa de Cristo a encontrar, receber e seguir. Com efeito, Jesus diz-nos: «Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me» (Lc 9, 23). Ou seja, diz-nos que para chegar com Ele à luz e à alegria da ressurreição, à vitória da vida, do amor e do bem, também nós temos que tomar a cruz todos os dias, como nos exorta uma bonita página da Imitação de Cristo: «Portanto, toma a tua cruz e segue Jesus; assim entrarás na vida eterna. Foste precedido por Ele mesmo, que carregou a sua cruz (cf. Jo 19, 17) e morreu por ti, a fim de que também tu carregasses a tua cruz e desejasses, também tu, ser crucificado. Com efeito, se morreres com Ele, viverás com Ele e como Ele. Se lhe fores companheiro no sofrimento, ser-lhe-ás companheiro inclusive na glória» (l. 2, c. 12, n. 2). Na Santa Missa do primeiro Domingo de Quaresma, oramos: «Ó Deus, nosso Pai, com a celebração desta Quaresma, sinal sacramental da nossa conversão, concedei que os vossos fiéis cresçam no conhecimento do mistério de Cristo e testemunhem com uma digna conduta de vida» (Colecta). É uma invocação que dirigimos a Deus, porque sabemos que só Ele pode converter o nosso coração. E é sobretudo na Liturgia, na participação nos santos mistérios, que nós somos levados a percorrer este caminho com o Senhor; é um pôr-nos na escola de Jesus, repercorrendo os acontecimentos que nos trouxeram a salvação, mas não como uma simples comemoração, uma lembrança de acontecimentos passados. Nos gestos litúrgicos, Cristo torna-se presente através da obra do Espírito Santo, aqueles eventos salvíficos tornam-se actuais. Há uma palavra-chave que é citada com frequência na Liturgia para indicar isto: a palavra «hoje»; e ela deve ser entendida em sentido originário e concreto, não metafórico. Hoje Deus revela a sua lei e hoje é-nos dado escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte (cf. Dt 30, 19); hoje «o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15); hoje Cristo morreu no Calvário e ressuscitou dos mortos; subiu ao céu e está sentado à direita do Pai; hoje é-nos conferido o Espírito Santo; hoje é um tempo favorável. Então, participar na Liturgia significa imergir a própria vida no mistério de Cristo, na sua presença permanente, percorrer um caminho em que entramos na sua morte e ressurreição para receber a vida.

Nos domingos da Quaresma, de modo totalmente particular neste ano litúrgico do ciclo A, somos introduzidos a viver um itinerário baptismal, como que a repercorrer o caminho dos catecúmenos, daqueles que se preparam para receber o Baptismo, para reavivar em nós este dom e para fazer com que a nossa vida recupere as exigências e os compromissos deste Sacramento, que está na base da nossa vida cristã. Na Mensagem que enviei para esta Quaresma, desejei evocar o nexo particular que une o Tempo quaresmal ao Baptismo. Desde sempre, a Igreja associa a Vigília pascal à celebração do Baptismo, passo por passo: é nele que se realiza aquele grande mistério pelo qual o homem, morto para o pecado, se torna partícipe da vida nova em Cristo ressuscitado e recebe o Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11). As Leituras que ouviremos nos próximos domingos, e às quais vos convido a prestar atenção especial, são tiradas precisamente da tradição antiga, que acompanhava o catecúmeno na descoberta do Baptismo: elas são o grande anúncio daquilo que Deus realiza neste Sacramento, uma maravilhosa catequese baptismal dirigida a cada um de nós. O primeiro Domingo, chamado Domingo da tentação porque apresenta as tentações de Jesus no deserto, convida-nos a renovar a nossa decisão definitiva por Deus e a enfrentar com coragem a luta que nos espera para lhe permanecermos fiéis. Apresenta-se sempre de novo esta necessidade de decisão, de resistir ao mal, de seguir Jesus. Neste Domingo a Igreja, depois de ter ouvido o testemunho dos padrinhos e dos catequistas, celebra a eleição daqueles que são admitidos aos Sacramentos pascais. O segundo Domingo é chamado de Abraão e da Transfiguração. O Baptismo é o sacramento da fé e da filiação divina; como Abraão, pai dos fiéis, também nós somos convidados a partir, a sair da nossa terra, a deixar as seguranças que nos construímos, e voltar a depositar a nossa confiança em Deus; a meta entrevê-se na transfiguração de Cristo, o Filho amado no Qual também nós somos «filhos de Deus». Nos Domingos seguintes é apresentado o Baptismo nas imagens da água, da luz e da vida. O terceiro Domingo faz-nos encontrar a Samaritana (cf. Jo 4, 5-42). Como Israel no Êxodo, também nós no Baptismo recebemos a água salvífica; como diz à Samaritana, Jesus tem água de vida, que sacia toda a sede; e esta água é o seu próprio Espírito. Neste Domingo, a Igreja celebra o primeiro escrutínio dos catecúmenos e, durante a semana, entrega-lhes o Símbolo: a Profissão da fé, o Credo. O quarto Domingo faz-nos meditar sobre a experiência do «cego de nascença» (cf. Jo 9, 1-41). No Baptismo somos libertados das trevas do mal e recebemos a luz de Cristo para viver como filhos da luz. Também nós devemos aprender a ver a presença de Deus no rosto de Cristo e assim a luz. No caminho dos catecúmenos celebra-se o segundo escrutínio. Enfim, o quinto Domingo apresenta-nos a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45). No Baptismo, nós passamos da morte para a vida, tornando-nos capazes de agradar a Deus, de fazer morrer o homem velho para viver do Espírito do Ressuscitado. Para os catecúmenos, celebra-se o terceiro escrutínio e durante a semana eles recebem a oração do Senhor: o Pai-Nosso.

Este itinerário da Quaresma que somos convidados a percorrer na Quaresma é caracterizado, na tradição da Igreja, por algumas práticas: o jejum, a esmola e a oração. O jejum significa a abstinência do alimento, mas abrange outras formas de privação para uma vida mais sóbria. Porém, tudo isto ainda não é a realidade completa do jejum: é o sinal externo de uma realidade interior, do nosso compromisso, com a ajuda de Deus, de nos abstermos do mal e de vivermos do Evangelho. Não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus.

Na tradição cristã, o jejum está ligado estreitamente à esmola. São Leão Magno ensinava num dos seus discursos sobre a Quaresma: «Aquilo que cada cristão deve realizar em todos os tempos, agora deve praticá-lo com maiores solicitude e devoção, para que se cumpra a norma apostólica do jejum quaresmal, que consiste na abstinência não apenas dos alimentos, mas também e sobretudo dos pecados. Além disso, a estes jejuns obrigatórios e santos, nenhuma obra pode ser associada mais utilmente que a esmola que, sob o único nome de “misericórdia”, inclui muitas obras boas. Imenso é o campo das obras de misericórdia. Não só os ricos e abastados podem beneficiar os outros com a esmola, mas também quantos vivem em condições modestas e pobres. Assim, desiguais nos bens de fortuna, todos podem ser iguais nos sentimentos de piedade da alma» (Discurso 6 sobre a Quaresma, 2: PL 54, 286). Na sua Regra pastoral, são Gregório Magno recordava que o jejum torna-se santo através das virtudes que o acompanham, sobretudo da caridade e de cada gesto de generosidade, que confere aos pobres e aos necessitados o fruto de uma nossa privação (cf. 19, 10-11).

Além disso, a Quaresma é um período privilegiado para a oração. Santo Agostinho diz que o jejum e a esmola são «as duas asas da oração», que lhe permitem tomar mais facilmente o seu impulso e chegar até Deus. Ele afirma: «Deste modo a nossa oração, feita de humildade e caridade, no jejum e na esmola, na temperança e no perdão das ofensas, oferecendo coisas boas e não restituindo as más, afastando-se do mal e praticando o bem, procura e alcança a paz. Com as asas destas virtudes, a nossa oração voa com segurança e é levada mais facilmente até ao céu, onde nos precedeu Cristo nossa paz» (Sermão 206, 3 sobre a Quaresma: PL 38, 1042). A Igreja sabe que, pela nossa debilidade, é difícil manter-se silêncio para nos colocarmos diante de Deus e adquirirmos a consciência da nossa condição de criaturas que dependem dele e de pecadores necessitados do seu amor; por isso, na Quaresma, convida a uma oração mais fiel e intensa, e a uma prolongada meditação sobre a Palavra de Deus. São João Crisóstomo exorta: «Adorna a tua casa de modéstia e humildade, mediante a prática da oração. Torna maravilhosa a tua habitação com a luz da justiça; ornamenta as suas paredes com as boas obras, como de um verniz de ouro puro, e no lugar dos muros e das pedras preciosas, coloca a fé e a magnanimidade sobrenatural, pondo acima de todas as coisas, no auge de tudo, a oração como decoração de todo o conjunto. Assim preparas uma moradia digna do Senhor, assim o recebes numa mansão maravilhosa. Ele conceder-te-á transformar a tua alma em templo da sua presença» (Homilia 6 sobre a Oração: pg 64, 466).

Caros amigos, neste caminho quaresmal, estejamos atentos a aceitar o convite de Cristo a segui-lo de modo mais decidido e coerente, renovando a graça e os compromissos do nosso Baptismo, para abandonar o homem velho que está em nós e para nos revestirmos de Cristo, em vista de chegarmos renovados à Páscoa e de podermos dizer juntamente com são Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20). Bom caminho quaresmal a todos vós. Obrigado!

Sexta, 04 Fevereiro 2011 18:11

Carta da Congregação para o Clero - Identidade missionária do presbítero na Igreja

Escrito por Trídia Criação

A IDENTIDADE MISSIONÁRIA DO PRESBÍTERO NA IGREJA COMO DIMENSÃO INTRÍNSECA DO EXERCÍCIO DOS TRIA MUNERA

Carta Circular

Introdução

Ecclesia peregrinans natura sua missionaria est.

« A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na «missão» do Filho e do Espírito Santo ». [1]

O Concílio Ecumênico Vaticano II, no fluxo ininterrupto da Tra- dição, é bem explícito na afirmação da missionariedade intrínseca da Igreja. A Igreja não existe por si e para si mesma: sua origem está nas missões do Filho e do Espírito; a Igreja é chamada, por sua natureza, a sair de si mesma dirigindo-se ao mundo, para ser sinal do Emanuel, do Verbo que se fez carne, do Deus-conosco.

Do ponto de vista teológico, a missionariedade está inserida em cada uma das notas da Igreja, sendo particularmente representada pela catolicidade e pela apostolicidade. Como cumprir fielmente a tarefa de sermos apóstolos, testemunhas fiéis do Senhor, anunciadores da Pa- lavra e administradores humildes e seguros da graça, senão mediante a missão, entendida como verdadeiro e próprio fator constitutivo do ser Igreja?

Além disso, a missão da Igreja é a que ela recebeu de Jesus Cristo, por meio do dom do Espírito Santo. Tal missão é única e está confiada a todos os membros do povo de Deus, que se tornam participantes do sacerdócio de Cristo mediante os sacramentos da iniciação, com a finalidade de oferecer a Deus um sacrifício espiritual e testemunhar Cristo diante dos homens. Essa missão se estende a todos os homens, a todas as culturas, a todos os lugares e a todos os tempos. A uma única missão corresponde um único sacerdócio: o de Cristo, do qual participam todos os membros do povo de Deus, embora de maneira efetivamente diferente, e não apenas em grau diverso.

Nessa missão, certamente, os presbíteros, enquanto colaboradores mais preciosos dos Bispos, sucessores dos Apóstolos, têm um papel central e absolutamente insubstituível, que lhes é confiado pela providência de Deus.

1. Consciência eclesial da necessidade de um renovado empenho missionário

A missionariedade intrínseca da Igreja se baseia dinamicamente nas próprias missões trinitárias. A Igreja é chamada, por sua natureza, a anunciar a pessoa de Jesus Cristo morto e ressuscitado, a dirigir-se à humanidade inteira, segundo o mandato recebido do próprio Se- nhor: « Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura » (Mc 16,15); « Como o Pai me enviou, também eu vos envio » (Jo 20,21). Na própria vocação de São Paulo, está presente um envio: « Vai, por- que é para os gentios, para longe, que eu quero enviar-te » (At 22,21).

Para realizar essa missão, a Igreja recebe o Espírito Santo, enviado pelo Pai e pelo Filho no dia de Pentecostes. O Espírito que desceu sobre os Apóstolos é o Espírito de Jesus: leva a reproduzir os gestos de Jesus, a anunciar a palavra de Jesus (cf. At 4,30), a repetir a oração de Jesus (cf. At 7,59s; Lc 23,34.46), a perpetuar, na fração do pão, o agradecimento e o sacrifício de Jesus e conserva a unidade entre os irmãos (cf. At 2,42; 4,32). O Espírito Santo confirma e manifesta a comunhão dos discípulos como nova criação, como comunidade de salvação escatológica, e envia em missão: « Sereis minhas testemunhas [...] até os confins da terra » (At 1,8). O Espírito Santo impele a Igreja nascente à missão no mundo inteiro, demonstrando, dessa forma, que ele é derramado sobre « toda carne » (cf. At 2,17).

Nos dias de hoje, vistas as condições novas da presença e atividade da Igreja no panorama mundial, renova-se a urgência missionária, não apenas ad gentes, mas dentro do próprio rebanho, já constituído, da Igreja.

Nas últimas décadas, o magistério petrino expressou com autoridade e tons cada vez mais fortes e decididos a urgência de um renova- do esforço missionário. Basta pensar na Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, ou na Redemptoris missio e Novo millennio ineunte, de João Paulo II, [2] até chegar às numerosas intervenções de Bento XVI. [3]

Não é menor a preocupação do Papa Bento XVI pela missão ad gentes, como demonstra sua constante solicitude. É preciso destacar e encorajar cada vez mais a presença, nos dias de hoje, de um número muito grande de missionários enviados ad gentes. Obviamente, eles não são suficientes. E vem-se delineando, ainda, um fenômeno novo: missionários africanos e asiáticos que ajudam a Igreja, por exemplo, na Europa.

É preciso também que nos alegremos e agradeçamos a Deus por vários novos Movimentos e Comunidades Eclesiais, até mesmo de caráter leigo, que vivem a missionariedade, quer em sua região – entre os católicos que, por motivos diversos, não vivem a pertença à comunidade eclesial –, quer ad gentes.

2. Aspectos teológico-espirituais da missionariedade dos presbíteros

Não podemos considerar o aspecto missionário da teologia e da espiritualidade sacerdotal sem explicitar a relação com o mistério de Cristo. Como já destacamos no no 1, a Igreja encontra seu fundamento nas missões de Cristo e do Espírito Santo: assim, toda «missão» e a dimensão missionária da própria Igreja, intrínseca a sua natureza, se baseiam na participação da missão divina. O Senhor Jesus é, por antonomásia, o enviado do Pai. Com intensidade maior ou menor, todos os escritos neotestamentários dão esse testemunho.

No Evangelho de Lucas, Jesus apresenta a si mesmo como aquele que, consagrado com a unção do Espírito, foi enviado a anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4,18; Is 61,1-2). Nos três Evangelhos sinóticos, Jesus identifica a si mesmo com o filho amado que, na parábola dos vinhateiros homicidas, é enviado pelo senhor da vinha por último, depois dos servos (cf. Mc 12,1-12; Mt 21,33-46; Lc 20,9- 19); fala ainda em outros momentos de sua condição de enviado (cf. Mt 15,24). Em Paulo também aparece a idéia da missão de Cristo como enviado de Deus Pai (cf. Gl 4,4; Rm 8,3).

Mas é sobretudo nos textos joaninos que aparece, com maior frequência, a « missão » divina de Jesus. [4] 4 Ser « o enviado do Pai » pertence certamente à identidade de Jesus: Ele é aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo, e esse fato é expressão de sua irrepetível filiação divina (cf. Jo 10,36-38). Jesus levou a termo a Obra Salvífica, sempre, como enviado do Pai e como aquele que realiza as obras de quem o enviou, em obediência a sua vontade. Somente no cumprimento dessa vontade Jesus exerceu seu ministério de sacerdote, profeta e rei. Ao mesmo tempo é como enviado do Pai que ele, por sua vez, envia os discípulos. A missão, em todos os seus vários aspectos, tem seu fundamento na missão do Filho no mundo e na missão do Espírito Santo. [5]

Jesus é o enviado que, por sua vez, envia (cf. Jo 17,18). A «missionariedade » é, antes de mais nada, uma dimensão da vida e do ministério de Jesus e, por conseguinte, o é também da Igreja e de cada indivíduo cristão, de acordo com as exigências de sua vocação pessoal. Vemos como Jesus exerceu seu ministério salvífico, para o bem dos homens, nas dimensões do ensino, da santificação e do governo, intimamente ligadas; ou, em outros termos, mais propriamente bíblicos, enquanto profeta e revelador do Pai, enquanto sacerdote e enquanto Senhor, rei, pastor.

Embora Jesus, em sua proclamação do Reino e em sua função de revelador do Pai, tenha-se sentido especialmente enviado ao povo de Israel (cf. Mt 15,24; 10,5), não faltam diversos episódios em sua vida nos quais se manifesta o horizonte de universalidade de sua mensagem: Jesus não exclui os gentios da salvação, louva a fé de alguns deles, por exemplo a do centurião, e anuncia que os pagãos virão dos confins do mundo, para se sentar à mesa com os patriarcas de Israel (cf. Mt 8,10-12; Lc 7,9); igualmente, diz à mulher cananéia: « Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres» (Mt 15,28; cf. Mc 7,29). Em continuidade com sua missão, Jesus ressuscitado envia seus discípulos a pregar o Evangelho a todas as nações, numa missão universal (cf. Jo 20,21-22; Mt 28,19-20; Mc 16,15; At 1,8). A revelação cristã se destina a todos os homens, sem distinções.

A revelação de Deus Pai, trazida por Jesus, baseia-se em sua união irrepetível com o Pai, em sua consciência filial; só a partir desta pode Jesus exercer sua função de revelador (cf. Mt 11,12-27; Lc 10,21-22; Jo 1,18; 14,6-9; 17,3.4.6). Dar a conhecer o Pai, com tudo o que esse conhecimento implica, é a finalidade última de todo o ensinamento de Jesus. Sua missão de revelador está tão arraigada no mistério de sua pessoa, que, mesmo na vida eterna, continuará sua revelação do Pai: «Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles» (Jo 17,26; cf. 17,24). Essa experiência da paternidade divina deve impelir os discípulos ao amor por todos, e nisso consistirá sua « perfeição » (cf. Mt 5,45-48; Lc 6,35-36).

O ministério sacerdotal de Jesus não pode ser entendido sem a perspectiva da universalidade. É clara, a partir dos textos neotestamentários, a consciência que Jesus tem de sua missão, que o leva a dar a vida por todos os homens (cf. Mc 10,45; Mt 20,28). Jesus, que não pecou, põe-se no lugar dos homens pecadores e, por eles, se oferece ao Pai. As palavras da instituição da Eucaristia testemunham a mesma consciência e a mesma atitude; Jesus oferece a própria vida no sacrifício da Nova Aliança em favor dos homens: « Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos» (Mc 14,24; cf. Mt 26,28; Lc 22,20; 1 Cor 11,24-25).

O sacerdócio de Cristo foi aprofundado, principalmente, na Carta aos Hebreus, em que é ressaltado que ele é o sacerdote eterno, que possui um sacerdócio que não tem ocaso (cf. Hb 7,24), é o sacerdote perfeito (cf. Hb 7,28). Diante da multiplicidade de sacerdotes e de sacrifícios antigos, Cristo ofereceu a si mesmo, uma só vez e de uma vez para sempre, mediante o sacrifício perfeito (cf. Hb 7,27; 9,12.28; 10,10; 1 Pd 3,18). Essa unicidade de sua pessoa e de seu sacrifício confere ao sacerdócio de Cristo o seu caráter único e universal; toda a sua pessoa e, concretamente, o sacrifício redentor que tem um valor para a eternidade, traz o signo do que não passa e é insuperável. Cristo, sumo e eterno sacerdote, continua ainda, em sua condição de glorificado, a interceder por nós junto do Pai (cf. Jo 14,16; Rm 8,32; Hb 7,25; 9,24; 10,12; 1 Jo 2,1).

Jesus, enviado pelo Pai, aparece também como Senhor no Novo Testamento (cf. At 2,36). É o evento da ressurreição que leva os cristãos a reconhecerem o domínio de Cristo. Nas primeiras confissões de fé, aparece esse título fundamental relacionado com a ressurreição (cf. Rm 10,9). Não falta a referência a Deus Pai em muitos dos textos que nos falam de Jesus como Senhor (cf. Fl 2,11). Por outro lado, Jesus, que anunciou o reino de Deus, especialmente ligado a sua pessoa, é rei, como ele mesmo indica no Evangelho de João (cf. Jo 18,33-37). E, no fim dos tempos, irá « entregar a realeza a seu Deus e Pai, depois de destruir todo Principado e toda Autoridade e poder » (1 Cor 15,24).

Naturalmente, o domínio de Cristo tem pouco a ver com o dos grandes da terra (cf. Lc 22,25-27; Mt 20,25-27; Mc 10,42-45), pois, como ele mesmo indica, seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18,36). Por isso, o domínio de Cristo é o do bom pastor, que conhece todas as ovelhas, que oferece a vida por elas e quer reuni-las todas num só rebanho (cf. Jo 10,14-16). A parábola da ovelha perdida também fala, indiretamente, de Jesus bom pastor (cf. Mt 18,12-14; Lc 15,4-7). Jesus é, ainda, o « Supremo Pastor » (1 Pd 5,4).

Em Jesus se realiza, de modo eminente, o que a tradição veterotestamentária tinha dito sobre Deus pastor do povo de Israel: « Eu as apascentarei em viçosas pastagens, e no alto monte de Israel estará o seu curral. [...] Eu mesmo apascentarei minhas ovelhas e as farei repousar — oráculo do Senhor Deus. Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, enfaixarei a quebrada, fortalecerei a doente e vigiarei a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direi- to » (Ez 34,14-16). E mais adiante acrescenta: « Estabelecerei sobre elas um único pastor, o meu servo Davi. Ele as apascentará e lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus... » (Ez 34,23-24; cf. Jr 23,1-4; Zc 11,15-17; Sl 23,1-6). [6]

Só a partir de Cristo tem sentido a reflexão tradicional sobre os tria munera que configuram o sagrado ministério dos Sacerdotes. Não podemos esquecer que Jesus se considera presente em seus enviados: «Quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe e quem me recebe, recebe aquele que me enviou» (Jo 13,20; cf. também Mt 10,40; Lc 10,16). Existe uma corrente de « missões », que tem sua origem no próprio mistério do Deus Uno e Trino, que deseja que todos os homens participem da sua vida. O enraizamento trinitário, cristológico [7] e eclesiológico do ministério dos Sacerdotes é o fundamento da identidade missionária. A vontade salvífica universal de Deus, a unicidade e a necessidade da mediação de Cristo (cf. 1 Tm 2,4-7; 4,10) não permitem traçar limites na obra de evangelização e santificação da Igreja. Toda a economia da salvação tem sua origem no desígnio do Pai de recapitular tudo em Cristo (cf. Ef 1,3-10) e na realização desse desígnio, que se realizará completamente na vinda do Senhor na glória.

O Concílio Vaticano II alude claramente ao exercício dos tria munera de Cristo, por parte dos presbíteros, como colaboradores da ordem episcopal: «Participantes, segundo o grau do seu ministério, da função de Cristo único mediador (1 Tm, 2,5), anunciam a todos a palavra de Deus. Mas é no culto eucarístico ou sinaxe que exercem principalmente o seu múnus sagrado; nela, atuando em nome de Cristo e proclamando o seu mistério, unem as preces dos fiéis ao sacrifício da cabeça e, no sacrifício da missa, fazem presente e aplicam, até à vinda do Senhor (cf. 1 Cor 11,26), o único sacrifício do Novo Testamento, ou seja, Cristo oferecendo-se, uma vez por todas, ao Pai, como hóstia imaculada (cf. Hb 9, 11-28). [...] Desempenhando, segundo a medida da autoridade que possuem, o múnus de Cristo pastor e cabeça, reúnem a família de Deus em fraternidade animada por um mesmo espírito e, por Cristo e no Espírito Santo, conduzem-na a Deus Pai. No meio do próprio rebanho adoram-nO em espírito e verdade (cf. Jo 4,24) ». [8]

Em virtude do sacramento da Ordem, que confere um caráter espiritual indelével, [9] 9 os presbíteros são consagrados, ou seja, tirados «do mundo» e entregues «ao Deus vivo», tomados «como sua propriedade, a fim de que, a partir d’Ele, possam desempenhar o serviço sacerdotal pelo mundo », para pregar o Evangelho, ser os pastores dos fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento (cf. Hb 5,1). [10]

O Sumo Pontífice Bento XVI, na alocução que dirigiu aos participantes da Assembléia Plenária da Congregação para o Clero, afirmou que « a dimensão missionária do presbítero nasce da sua configuração sacramental com Cristo Cabeça: de consequência, ela comporta uma adesão cordial e total àquela que a tradição eclesial reconheceu como a apostólica vivendi forma. Esta consiste na participação numa «vida nova» espiritualmente falando, naquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos. Pela imposição das mãos do Bispo e a oração consecratória da Igreja, os candidatos tornam-se homens novos, tornam-se « presbíteros ». Sob esta luz, vê-se claramente como os tria munera são, primeiro, um dom e, só depois, um ofício; primeiro, a participação numa vida, e por isso uma potestas ». [11]

O Decreto Presbyterorum ordinis, sobre o ministério e a vida sacerdotal, explica essa verdade quando se refere aos presbíteros como ministros da palavra de Deus, ministros da santificação por meio dos sacramentos e da eucaristia, guias e educadores do povo de Deus. A identidade missionária do presbítero, embora não apareça explicitamente muito desenvolvida, está claramente presente nesses textos. Neles é sublinhado expressamente o dever de anunciar a todos o Evangelho de Deus, correspondendo ao mandato do Senhor por meio da proclamação da mensagem evangélica, com uma referência expressa aos não crentes e uma chamada à fé e aos sacramentos. O sacerdote, « enviado », que participa da missão de Cristo enviado pelo Pai, encontra-se envolvido numa dinâmica missionária, sem a qual não pode realmente viver sua identidade. [12]

Também na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores dabo vobis é afirmado que, mesmo inserido numa Igreja particular, o presbítero, em virtude de sua ordenação, recebeu um dom espiritual que o prepara para uma missão universal, até os confins da terra, pois «todo mi- nistério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada por Cristo aos apóstolos ». [13] Por isso, a vida espiritual do sacerdote deve ser caracterizada pelo impulso e dinamismo missionário: na esteira do Concílio Vaticano II, é indicado que os sacerdotes devem formar a comunidade que lhes foi confiada, para fazer dela uma comunidade autenticamente missionária. [14] A função de pastor exige que o impulso missionário seja vivido e comunicado, pois toda a Igreja é essencialmente missionária. Dessa dimensão da Igreja deriva de modo decisivo a identidade missionária do presbítero.

Quando se fala de missão, é preciso levar em consideração, necessariamente, que o enviado – o presbítero, nesse caso – encontra-se em relação tanto com quem o envia como com aqueles aos quais é enviado. Examinando sua relação com Cristo, o primeiro enviado do Pai, é preciso sublinhar o fato de que, conforme os textos do Novo Testamento, é o próprio Cristo que envia e constitui os ministros de sua Igreja, mediante o dom do Espírito Santo concedido na ordenação sacramental; eles não podem ser considerados simplesmente eleitos ou delegados da comunidade ou do povo sacerdotal. O envio vem de Cristo; os ministros da Igreja são instrumentos vivos de Cristo único mediador. « O presbítero encontra a verdade plena da sua identidade no fato de ser uma derivação, uma participação específica e uma continuação do próprio Cristo, sumo e único Sacerdote da nova e eterna Aliança: ele é uma imagem viva e transparente de Cristo Sacerdote ». [16]

Tomando como ponto de partida essa referência cristológica, aparece claramente a dimensão missionária da vida do sacerdote: Jesus morreu e ressuscitou por todos os homens que quer reunir num só rebanho; ele tinha de morrer para reunir todos os filhos de Deus que estavam dispersos (cf. Jo 11,52). Se todos morrem em Adão, em Jesus todos retornam à vida (cf. 1 Cor 15,20-22); em Jesus, Deus reconcilia o mundo consigo (cf. 2 Cor 5,19); assim, Jesus ordenou aos apóstolos que pregassem o Evangelho a todos os povos. Todo o Novo Testa- mento é atravessado pela idéia da universalidade da ação salvífica de Cristo e de sua única mediação. O presbítero, configurado a Cristo profeta, sacerdote e rei, não pode deixar de ter o coração aberto a todos os homens e – concretamente e sobretudo – àqueles que não conhecem Jesus e não receberam ainda a luz de sua Boa Nova.

No que diz respeito aos homens, a quem a Igreja deve anunciar o Evangelho, [17] e a quem, por conseguinte, o presbítero é enviado, é preciso evidenciar como o Concílio Vaticano II, repetidamente, falou da unidade da família humana, baseada na criação de todos à imagem e semelhança de Deus e na comunhão de destino em Cristo: « Os homens constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro gênero humano; têm também todos um só fim último, Deus, que a todos estende a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus desígnios de salvação». [18] Essa unidade é chamada a alcançar seu ápice na recapitulação universal em Cristo (cf. Ef 1,10). [19]

A essa recapitulação final de tudo em Cristo, que constitui a salvação dos homens, dirige-se toda a ação pastoral da Igreja. Sendo todos os homens chamados à unidade em Cristo, ninguém pode ser excluído da solicitude do presbítero a Ele configurado. Todos esperam, mesmo que inconscientemente (cf. At 17,23-28), a salvação que só pode vir d’Ele: a salvação que é a inserção no Mistério Trinitário, na participação de sua filiação divina. Não podem ser feitas discriminações entre os homens, que têm todos a mesma origem e compartilham o mesmo destino e a única vocação em Cristo. Estabelecer limites à «caridade pastoral» do presbítero seria totalmente contraditório com a sua vocação, marcada pela peculiar configuração a Cristo, cabeça e pastor da Igreja e de todos os homens.

Os tria munera, exercidos pelos sacerdotes em seu ministério, não podem ser concebidos sem sua essencial relação com a pessoa de Cristo e com o dom do Espírito. O presbítero se configura a Cristo mediante o dom do Espírito recebido na ordenação. Uma vez que os tria munera, em Cristo, mostram-se essencialmente entrelaçados, não podendo assim ser separados de modo algum, e os três recebem luz da identidade filial de Jesus, o enviado do Pai, da mesma forma não podemos separar o exercício dessas três funções nos sacerdotes. [20]

O presbítero vive uma relação com a pessoa de Cristo, e não somente com suas funções, que brotam e adquirem pleno sentido da própria pessoa do Senhor. Isso significa que o sacerdote encontra a especificidade de sua vida e de sua vocação vivendo sua configuração pessoal a Cristo; é sempre um alter Christus. Na consciência de ser enviado por Cristo, como Cristo é enviado pelo Pai, para a salus animarum, o sacerdote experimentará a dimensão universal, e portanto missionária, de sua identidade mais profunda.

3. Uma renovada práxis missionária dos presbíteros

A urgência missionária de nossos dias exige uma renovada práxis pastoral. As novas condições culturais e religiosas do mundo, com toda a sua diversidade, segundo as várias regiões geográficas e os diferentes ambientes sócio-culturais, indicam a necessidade de abrir novos caminhos para a práxis missionária. Bento XVI, no já citado discurso aos bispos alemães, disse: « Todos juntos devemos procurar descobrir no- vos modos de apresentar o Evangelho ao mundo contemporâneo ». [21]

Pelo que diz respeito à participação dos presbíteros nessa missão, há que recordar a essência missionária da própria identidade presbiteral, de todos e cada um dos presbíteros, e a história da Igreja, que mostra o papel insubstituível dos presbíteros na atividade missionária. Quando se trata da evangelização missionária dentro da Igreja já estabelecida, dirigindo-se aos batizados «que se afastaram» e a todos aqueles que, nas paróquias e nas dioceses, pouco ou nada conhecem de Jesus Cristo, esse papel insubstituível dos presbíteros aparece de modo ainda mais evidente.

Nas comunidades particulares, nas paróquias, o ministério dos presbíteros manifesta a Igreja como acontecimento transformador e redentor, que se realiza no cotidiano da sociedade. É aí que os presbíteros pregam a Palavra de Deus, evangelizam, catequizam, expondo integral e fielmente a sagrada doutrina, ajudam os fiéis a ler e a entender a Bíblia, reúnem o povo de Deus para celebrar a Eucaristia e os outros sacramentos, promovem outras formas de oração comunitária e devocional, recebem quem vem em busca de apoio, de consolação, de luz, de fé, de reconciliação e aproximação de Deus, convocam e presidem encontros da comunidade para estudar, elaborar e pôr em prática os planos pastorais, orientam e estimulam a comunidade no exercício da caridade para com os pobres – pobres em espírito e economicamente falando –, na promoção da justiça social, dos direitos humanos, da igual dignidade de todos os homens, da autêntica liberdade, da colaboração fraterna e da paz, segundo os princípios da doutrina social da Igreja. São os presbíteros, enquanto colaboradores dos Bispos, que têm a responsabilidade pastoral imediata.

3.1. O missionário deve ser discípulo

O próprio Evangelho mostra como ser missionário exige ser discípulo. O texto de Marcos afirma: « Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com o poder de expulsar os demônios» (Mc 3,13-15). «Chamou a si os que ele quis» e «para que ficassem com ele»: eis o discipulado! Esses discípulos serão enviados a pregar e a expulsar os demônios: eis os missionários!

No Evangelho de João, encontramos o chamado (« Vinde e vede »: Jo 1,39) dos primeiros discípulos, o seu encontro com Jesus e seu primeiro impulso missionário quando vão e chamam outros, anunciam- lhes o Messias encontrado e identificado e os conduzem a Jesus que chama ainda a tornar-se seus discípulos (cf. Jo 1,35-51).

No itinerário do discipulado, tudo começa com o chamado do Senhor. A iniciativa é sempre d’Ele. Isso indica que o chamado é uma graça, que deve ser livre e humildemente acolhida e guardada, com a ajuda do Espírito Santo. Deus amou-nos primeiro. É o primado da graça. Ao chamado segue-se o encontro com Jesus para ouvir sua palavra e experimentar seu amor por cada um e pela humanidade inteira. Ele ama-nos e revela-nos o verdadeiro Deus, Uno e Trino, que é amor. No Evangelho, vê-se como, neste encontro, o Espírito de Jesus transforma aquele que possui o coração disponível.

Com efeito, quem encontra Jesus experimenta uma profunda identificação com sua pessoa e sua missão no mundo, crê n’Ele, experimenta o seu amor, adere a Ele, decide segui-lo incondicionalmente para onde quer que o leve, investe n’Ele toda a sua vida e, se necessário, aceita morrer por Ele. Sai do encontro com o coração feliz e entusiasmado, fascinado pelo mistério de Jesus e lança-se a anunciá-lo a todos. Assim o discípulo torna-se semelhante ao Mestre, enviado por Ele e sustentado pelo Espírito Santo.

O pedido que hoje fazemos é o mesmo feito por alguns gregos, presentes em Jerusalém quando Jesus fez sua entrada messiânica na cidade. Eles pediam: «Queremos ver Jesus!» (Jo 12,21) Nós também fazemos esse pedido hoje. Onde e como podemos encontrar Jesus, depois de seu retorno ao Pai, hoje, no tempo da Igreja?

Papa João Paulo II de v. m. desenvolveu amplamente a necessidade do encontro com Jesus para todos os cristãos, a fim de que possam outra vez partir dele para anunciá-lo à humanidade atual. Ao mesmo tempo, indicou alguns lugares privilegiados em que é possível encontrar Jesus hoje. O primeiro lugar, dizia o Papa, é «a Sagrada Escritura, lida à luz da Tradição, dos Padres e do Magistério, e aprofundada através da meditação e da oração», [22] ou seja, a chamada lectio divina, leitura orante da Bíblia. Um segundo lugar, dizia o Papa, é a Liturgia, são os Sacramentos, e de modo muito especial a Eucaristia. No relato da aparição do Ressuscitado aos discípulos de Emaús, encontramos intimamente ligadas a Sagrada Escritura e a Eucaristia, como lugares de encontro com Cristo. Um terceiro lugar nos é indicado pelo texto evangélico de São Mateus sobre o juízo final, em que Jesus se identifica com os pobres (cf. Mt 25,31-46).

Uma outra fundamental e preciosa maneira de encontrar Jesus Cristo é a oração, tanto pessoal como comunitária, sobretudo diante do Santíssimo Sacramento, como também na oração fiel da Liturgia das Horas. A própria contemplação da criação pode se tornar um lugar de encontro com Deus.

Todo cristão deve ser conduzido a Jesus Cristo para ter, e em seguida sempre renovar e aprofundar, um encontro forte, pessoal e comunitário com o Senhor. Desse encontro, nasce e renasce o discípulo. Do discípulo, nasce o missionário. Se isso vale para todo cristão, muito mais para o presbítero. [23]

O discípulo e missionário, por outro lado, é sempre membro de uma comunidade de discípulos e missionários, que é a Igreja. Jesus veio ao mundo e deu sua vida na cruz « para reunir os filhos de Deus dispersos » (Jo 11,52). O Concílio Vaticano II ensina que « aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente ». [24] Jesus, com seu grupo de discípulos, de modo especial os Doze, dá início a essa comunidade nova, que reúne os filhos de Deus dispersos, ou seja, a Igreja. Depois de seu retorno ao Pai, os primeiros cristãos vivem em comunidade, sob a condução dos Apóstolos, e todo discípulo participa da vida comunitária e do encontro com os irmãos, em primeiro lugar partindo o pão eucarístico. É na Igreja, e a partir da efetiva comunhão com a própria Igreja, que vivemos e nos realizamos como discípulos e missionários.

3.2. A missão ad gentes

A Igreja inteira, por natureza, é missionária. Esse ensinamento do Concílio Vaticano II se reflete também na identidade e na vida dos presbíteros: « O dom espiritual, recebido pelos presbíteros na ordenação, não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para a missão imensa e universal da salvação, ‘até aos confins da terra’ (At 1,8) [...]. Lembrem-se, por isso, os presbíteros que devem tomar a peito a solicitude por todas as igrejas ». [25]

De muitas e diferentes formas, os presbíteros podem participar na missão ad gentes, mesmo sem ir às terras de missão. Também a eles, porém, Cristo pode conceder a graça especial de serem chamados por Ele e enviados por seus Bispos ou Superiores maiores à missão em regiões do mundo em que Ele ainda não foi anunciado e a Igreja ainda não se estabeleceu, ou seja, ad gentes, ou enviados para onde há escassez de clero. No âmbito do clero diocesano, pensemos, por exemplo, nos sacerdotes Fidei Donum.

Os horizontes da missão ad gentes se ampliam e exigem um renovado impulso na atividade missionária. Os presbíteros são enviados a perceber o sopro do Espírito, verdadeiro protagonista da missão, e a compartilhar essa solicitude da Igreja universal. [26]

3.3. A evangelização missionária

Na primeira parte deste texto, já identificamos a necessidade e a urgência de uma nova evangelização missionária no próprio rebanho da Igreja, ou seja, entre os já batizados.

De fato, grande parte de nossos católicos batizados não participa com regularidade, ou às vezes não participa nunca, da vida de nossas comunidades eclesiais. Isso acontece não só porque outros modelos se apresentam a eles como mais atraentes, ou então porque decidem conscientemente rejeitar a fé, mas também e cada vez mais porque não foram suficientemente evangelizados. Ou melhor: não encontraram ninguém que testemunhasse a eles a beleza da vida cristã autêntica. Ninguém os levou a um encontro forte e pessoal e, depois, comunitário com o Senhor. Um encontro que marcasse sua vida e a transformasse, um encontro em que começassem a ser verdadeiros discípulos de Cristo.

Isso indica a necessidade da missão: é preciso ir à procura dos nossos batizados, e também de todos os não ainda batizados, anunciar-lhes, de novo ou pela primeira vez, o querigma, ou seja, o primeiro anúncio da pessoa de Jesus Cristo, morto na cruz e ressuscitado para a nossa salvação, e de seu Reino, e assim conduzi-los a um encontro pessoal com Cristo.

Alguém talvez se pergunte se o homem e a mulher da cultura pós-moderna, das sociedades mais avançadas, ainda saberão abrir-se ao querigma cristão. A resposta deve ser positiva. O querigma pode ser compreendido e acolhido por qualquer ser humano, em qualquer tempo ou cultura. Mesmo os ambientes mais intelectuais ou mais simples podem ser evangelizados. Devemos, até, crer que também os chamados pós-cristãos possam, de novo, ser tocados pela pessoa de Jesus Cristo.

O futuro da Igreja depende, também, de nossa docilidade a sermos concretamente missionários em meio a nossos batizados. [27] Afinal, do evento salvífico do batismo derivam o direito e o dever dos sagrados pastores de evangelizar os batizados, como ato devido por justiça. [28]

Certamente, cada Igreja particular de cada continente e de cada nação deve encontrar o caminho para chegar, num esforço decidido e eficaz de missão evangelizadora, até seus católicos que, por diferentes motivos, não vivem sua pertença à comunidade eclesial. Nessa obra de evangelização missionária, os presbíteros detêm um papel insubstituível e precioso, em primeiro lugar no que diz respeito à missão no rebanho da paróquia que lhes foi confiada. Na paróquia, os presbíteros precisarão de convocar os membros da comunidade, consagrados e leigos, para prepará-los adequadamente e enviá-los em missão evangelizadora a cada pessoa, a cada família, até mesmo mediante visitas domiciliares, e a todos os ambientes sociais nos próprios territórios. O pároco, em primeira pessoa, deve participar na missão paroquial.

Na esteira do ensinamento conciliar e conscientes da advertência do Senhor « que todos sejam um [...] a fim de que o mundo creia que tu me enviaste » (Jo 17,21), é de primária importância, para uma renovada práxis missionária, que os presbíteros reavivem em si a consciência de ser colaboradores dos Bispos. Eles, de fato, são enviados por seu Bispo a servir a comunidade cristã. Por isso, a unidade com o Bispo, que por sua vez deverá estar efetiva e afetivamente unido com o Sumo Pontífice, constitui a primeira garantia de toda ação missionária.

Podemos procurar algumas indicações concretas para uma renovada prática missionária dos presbíteros no âmbito dos tria munera.

No âmbito do munus docendi:

1. Em primeiro lugar, para ser um verdadeiro missionário dentro do próprio rebanho da Igreja, segundo as exigências atuais, é essencial e indispensável que o presbítero se decida, com viva consciência e determinação, não apenas a acolher e evangelizar aqueles que o pro- curam, tanto na paróquia como em outros lugares, mas a «levantar- se e ir » em busca, primeiro, dos batizados que por motivos diversos não vivem sua pertença à comunidade eclesial, e também daqueles que pouco ou nada conhecem a Jesus Cristo.

Os presbíteros que exercem seu ministério nas paróquias devem- se sentir chamados em primeiro lugar a ir até o povo que vive no território paroquial, valorizando sabiamente também as tradicionais formas de encontro, como as bênçãos às famílias, que tantos frutos já trouxeram. Os presbíteros que são chamados à missão ad gentes devem ver nisso uma graça muito especial do Senhor, e partir alegres e sem temor. O Senhor sempre os acompanhará.

2. Para uma evangelização missionária dentro do próprio rebanho católico, em primeiro lugar nas paróquias, é preciso convidar, formar e enviar também os fiéis leigos e os religiosos da comunidade. Os presbíteros na paróquia, obviamente, são os primeiros missionários e devem ir em busca das pessoas nas casas e em qualquer lugar e ambiente social; todavia, os leigos e os religiosos também são chamados pelo Senhor, mediante seu Batismo e sua Crisma, a participar da mis- são, sob a condução do pastor local.

Culturalmente falando, é necessário tomar consciência do fato de que o exercício da « caridade pastoral » [29] para com os fiéis impõe não deixá-los indefesos (ou seja, privados de capacidade crítica) diante da doutrinação que muitas vezes lhes vem de espaços como a escola, a televisão, a imprensa, a internet e, às vezes, até das cátedras universitárias e do mundo do espetáculo.

Os sacerdotes, por sua vez, devem ser encorajados e sustentados por seus Bispos nessa delicada obra pastoral, sem nunca delegar totalmente a outros a catequese direta, de modo que todo o povo cristão seja orientado, no atual momento multicultural, por critérios autenticamente cristãos. É preciso distinguir entre doutrina autêntica e interpretações teológicas, e depois entre estas e aquelas que correspondem ao Magistério perene da Igreja.

3. O anúncio especificamente missionário do Evangelho exige que seja dada uma importância central ao querigma. Esse primeiro e renovado anúncio querigmático de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, e de seu Reino tem, sem dúvida, um vigor e uma unção especial do Espírito Santo, que não podem ser minimizados ou negligenciados no esforço missionário. [30]

Portanto, é preciso retomar, opportune et importune, com muita constância, convicção e alegria evangelizadora, esse primeiro anúncio, quer nas homilias, durante as santas Missas ou outros eventos evangeliza- dores, quer nas catequeses, ou, ainda, nas visitas domiciliárias, nas praças, nos meios de comunicação social, nos encontros pessoais com os batizados que não participam na vida das comunidades eclesiais; enfim, onde quer que o Espírito nos impulsione e ofereça uma oportunidade, que não devemos desperdiçar. O querigma alegre e corajoso distingue uma pregação missionária, que quer levar o ouvinte a um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, início do caminho de um verdadeiro discípulo.

4. É necessário explicar o fato de que a Igreja vive da Eucaristia, que é o centro. Na celebração eucarística se manifesta plenamente na sua identidade. Na vida e na atuação da Igreja, tudo leva à Eucaristia e tudo recomeça da Eucaristia. Por isso, a evangelização missionária, a pregação do querigma e todo o exercício do munus docendi devem tender também para a Eucaristia e levar o ouvinte, no fim das contas, à mesa eucarística. A própria missão deve sempre partir da Eucaristia e sair para o mundo. « A Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária ». [31]

5. A evangelização dos pobres é prioritária, em todas as for- mas, como disse o próprio Jesus: « O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres » (Lc 4,18). No texto evangélico de Mateus sobre o juízo final, constatamos que Jesus quer ser reconhecido, de modo especial, no pobre (cf. Mt 25,31-46). A Igreja sempre se inspirou nesses textos. [32]

6. A Igreja nunca impõe sua fé, mas sempre a propõe com amor, com unção e coragem, no respeito da autêntica liberdade religiosa, a qual pede também para si mesma, e da liberdade de consciência do ouvinte. Além disso, o método do verdadeiro diálogo é cada vez mais indispensável: um diálogo que não deve excluir o anúncio, mas antes supô-lo e ser, definitivamente, um caminho pelo qual evangelizar.33

7. É necessária a preparação do missionário mediante a formação de uma sólida espiritualidade e uma autêntica vida de oração, além de uma escuta constante da Palavra de Deus, de modo especial pela leitura dos Evangelhos. O método da lectio divina, da leitura orante da Bíblia, pode ser de grande ajuda. De qualquer modo, o pregador deve ser inflamado por um fogo novo, que se acende e mantém aceso no contato pessoal com o Senhor e vivendo em estado de graça, como podemos reconhecer nos Evangelhos. A essa escuta da Palavra deve juntar-se um estudo constante e aprofundado da doutrina católica autêntica, tal como se encontra principalmente no Catecismo da Igreja Católica e na sã teologia. A fraternidade sacerdotal é parte integrante da espiritualidade missionária, e a sustenta.

No âmbito do munus sanctificandi:

1. O exercício do munus sanctificandi está também ligado à capacidade de transmitir um sentido vivo do sobrenatural e do sagrado, que fascine e conduza a uma real experiência de Deus, existencialmente significativa.

Faz parte de toda celebração sacramental a proclamação da Palavra de Deus, dado que o sacramento exige a fé de quem o recebe. Esse fato é já uma primeira indicação de como o ministério presbiteral, na administração dos sacramentos e de modo especial na celebração da Eucaristia, possui uma dimensão missionária intrínseca, que pode ser desenvolvida como anúncio do Senhor Jesus e de seu Reino àqueles que pouco ou, até agora, nada foram evangelizados.

2. É preciso, ainda, sublinhar que a Eucaristia é o ponto de chega- da da missão. O missionário deve ir em busca das pessoas e dos povos para levá-los à mesa do Senhor, prenúncio escatológico do banquete de vida eterna com Deus, no céu, que será a realização plena da salvação, segundo o desígnio redentor de Deus. Será preciso, portanto, uma grande, calorosa e fraterna acolhida daqueles que vêm pela primeira vez à Eucaristia, ou a esta voltam, depois de terem sido instruídos pelos missionários.

Além disso, a Eucaristia tem uma dimensão de envio missionário. Cada Santa Missa, ao seu final, envia todos os participantes a atuar missionariamente na sociedade. A Eucaristia, como memorial da Páscoa do Senhor, torna presente, sempre de novo, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, que, por amor ao Pai e a nós, deu a vida por nossa redenção, amando-nos até o fim. Esse sacrifício de Cristo é a ação suprema de amor de Deus pelos homens.

A comunidade cristã, ao celebrar a Eucaristia e ao receber dignamente o sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus, fica profundamente unida ao Senhor e cumulada de seu amor desmedido. Ao mesmo tempo, todas as vezes recebe de novo o mandamento de Jesus: «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei», e se sente impelida pelo Espírito de Cristo a ir e anunciar a todas as criaturas a Boa Nova do amor de Deus e da esperança, certa de sua misericórdia salvadora. No Decreto Presbyterorum ordinis, o Concílio Vaticano II diz: « A Eucaristia é a fonte e o ápice de toda a evangelização» (no 5). Portanto, é fundamental que os sacerdotes tenham o cuidado de celebrar cotidianamente a Eucaristia, mesmo na ausência do povo.

3. Os outros sacramentos também recebem sua força santificante da morte e ressurreição de Cristo e, assim, proclamam a misericórdia indefectível de Deus. A própria celebração dos sacramentos, bela, condigna e devota, respeitando todas as normas litúrgicas, transforma-se numa evangelização muito especial para os fiéis presentes. Deus é Beleza, e a beleza da celebração litúrgica é um dos caminho que nos conduz a seu mistério.

4. Devemos rogar ao Senhor que desperte a vocação missionária da comunidade eclesial, de seus pastores e membros. Jesus disse: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos! Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita!» (Mt 9,37-38). A oração tem uma enorme força diante de Deus. Jesus nos assegura dessa força: «Pedi e vos será dado» (Mt 7,7); «Tudo o que, na oração, pedirdes com fé, vós o recebereis!» (Mt 21,22); «o que pedirdes em meu nome, eu o farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes algo em meu nome, eu o farei» (Jo 14,13-14).

5. É oportuno recordar que o sacramento da Reconciliação, na forma da confissão individual, possui uma profunda e intrínseca missionariedade. O sacerdote é chamado, para a fecundidade da missão que lhe está confiada e para sua santificação, a ser solícito, em primeiro lugar em seu próprio benefício, na celebração regular e freqüente desse sacramento e, ao mesmo tempo, a ser seu fiel e generoso ministro.

6. O ministério pastoral do presbítero está a serviço da unidade da comunidade cristã. A regeneração do povo cristão e o cuidado com a dimensão comunitária da experiência cristã são, por isso, a primeira tarefa missionária do presbítero.

7. Concluindo, o presbítero deverá entender melhor a natureza da sede que atormenta, às vezes até inconscientemente, os homens e as mulheres de nosso tempo: sede de Deus, de uma experiência e doutrina de verdadeira salvação, de um anúncio da verdade sobre o destino último, pessoal e comunitário, de uma religião cristã que seja capaz de permear toda a organização da vida e dia a dia a transforme cada vez mais. [34] Uma sede que só o Senhor Jesus poderá, em última instância, satisfazer, tendo sempre presente que «a caridade pastoral constitui o princípio interior e dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diversas atividades pastorais do presbítero ». [35]

No âmbito do munus regendi:

1. São indispensáveis a preparação e a organização da missão nas comunidades eclesiais, nas paróquias. Uma boa preparação e uma organização clara da missão já constituem um penhor de êxito frutuoso. Obviamente, o primado da graça não pode ser esquecido, deve ser evidenciado. O Espírito Santo é o primeiro operador missionário. Por isso, é preciso invocá-lo insistentemente e com muita confiança. Será ele que acenderá aquele fogo novo, aquela paixão missionária que é necessária nos corações dos membros da comunidade. Mas é necessário o concurso da liberdade humana. Os pastores da comunidade devem pensar, também do ponto de vista organizacional, nas formas mais incisivas e oportunas de missão.

2. É preciso buscar a execução de uma boa metodologia missionária. A Igreja tem disso uma experiência bimilenar. Todavia, cada época histórica traz consigo novas circunstâncias, que devem ser levadas em consideração ao estabelecer como praticar a missão. Há muitas metodologias já elaboradas e comprovadas na práxis das Igrejas particulares. As Conferências Episcopais e as dioceses poderiam oferecer oportunas indicações sobre esse ponto.

3. É preciso que nos dirijamos, em primeiro lugar, aos pobres das periferias urbanas e das zonas rurais. São eles os destinatários prediletos do Evangelho. Isso significa que o anúncio deve ser acompanhado por uma ação eficaz e amorosa de promoção humana integral. Jesus Cristo deve ser proclamado como uma boa notícia para os pobres. Estes devem-se sentir contentes e cheios de segura esperança em virtude desse anúncio. [36]

4. Seria oportuno que a missão na paróquia e na diocese não se reduzisse a um período determinado. A Igreja é, por sua própria natureza, missionária. Assim, a missão deve fazer parte das dimensões permanentes do ser e do agir da Igreja. Por conseguinte, a missão deve ser permanente. É claro que podem existir períodos mais intensos, mas a missão não deveria jamais ser dada por concluída ou interrompida. Antes, a missionariedade deve ser firme e amplamente integrada na própria estrutura da atividade pastoral e da vida da Igreja particular e de suas comunidades.

Isso poderia levar a uma autêntica renovação, e viria a constituir um elemento muito válido para revigorar e rejuvenescer a Igreja nos dias de hoje. É permanente, também, a missionariedade dos próprios presbíteros, os quais, independentemente do ofício exercido e da idade cronológica, são chamados à missão sempre até o último dia de sua existência terrena, porque a missão está indissoluvelmente ligada à ordenação que receberam.

3.4. A formação missionária dos presbíteros

Todos os presbíteros devem receber uma formação missionária específica e cuidadosa, dado que a Igreja quer empenhar-se, com renovado ardor e urgência, na missão ad gentes e numa evangelização missionária, dirigida a seus batizados, de modo particular àqueles que se afastaram da participação na vida e atividade da comunidade eclesial. Essa formação deveria ter início já no seminário, sobretudo mediante a direção espiritual e um estudo cuidadoso e aprofundado do sacra- mento da Ordem, a fim de salientar como a dinâmica missionária é intrínseca ao sacramento.

Aos presbíteros já ordenados muito beneficiará, e pode-se até tornar necessária, a formação missionária, integrada no programa de formação permanente. A consciência, por um lado, da urgência da missão e, por outro, da formação e espiritualidade missionárias talvez insuficientes do presbitério há de indicar, a cada Bispo ou Superior Maior, as medidas que devem ser tomadas para dar início a uma renovada preparação para a missão e a uma mais profunda e estimulante espiritualidade missionária nos presbíteros.

Parece-nos útil destacar que um dos principais aspectos da missão é a tomada de consciência de sua urgência, que inclui o aspecto da formação dos candidatos ao ministério presbiteral, com sua específica vertente missionária.

Se o número de vocações vem crescendo globalmente no mundo, embora ainda modestamente (isso, enquanto sobretudo o Ocidente desperta algumas apreensões), o aspecto absolutamente determinante para o futuro da Igreja é a formação: um sacerdote com uma identidade clara e específica, com uma sólida formação humana, intelectual, espiritual e pastoral, gerará mais facilmente novas vocações, pois viverá a consagração como missão e, contente e seguro do amor que o Senhor tem por sua existência sacerdotal, saberá difundir o «bom perfume de Cristo » ao seu redor e viver cada instante de seu ministério como uma oportunidade missionária.

Mostra-se cada vez mais urgente, então, criar um «círculo virtuoso» entre o tempo da formação no seminário e o do ministério ini- cial e da formação permanente. [37] 37 Esses momentos devem permanecer firmemente unidos e absolutamente harmônicos, para que também nessa obra o clero possa tornar-se cada vez mais plenamente o que é: uma pérola preciosa e indispensável, oferecida por Cristo à Igreja e à humanidade inteira.

Conclusão

Se a missionariedade é um elemento constitutivo da identidade eclesial, devemos ser gratos ao Senhor, que renova, também por intermédio do Magistério pontifício recente, essa clara consciência em toda a sua Igreja, e em particular nos presbíteros.

A urgência missionária no mundo é verdadeiramente grande e exige uma renovação da pastoral, no sentido de que a comunidade cristã deveria conceber-se em «missão permanente», tanto ad gentes como onde a Igreja já está estabelecida, ou seja, indo em busca daqueles que batizamos e têm o direito de ser evangelizados por nós.

As melhores energias da Igreja e dos presbíteros sempre foram empregadas no anúncio do querigma, que é a essência da missão que nos foi dada pelo Senhor. Essa « tensão missionária » permanente não poderá deixar de ser útil também à identidade do presbítero, que, precisamente no exercício missionário dos tria munera, encontra o principal caminho para sua santificação pessoal e, portanto, também para sua plena realização humana.

Além disso, o envolvimento real e efetivo de todos os membros do Corpo eclesial (bispos, presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e leigos) na missão favorecerá a experiência de unidade visível, tão essencial à eficácia de todo e qualquer testemunho cristão.

A identidade missionária do presbítero, para se manter, deve olhar incessantemente para a Bem-Aventurada Virgem Maria, que, cheia de graça, foi levar e apresentar o Senhor ao mundo e que continua, sem- pre, a visitar os homens de todos os tempos, ainda peregrinos neste mundo, para mostrar-lhes o rosto de Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, e para introduzi-los na comunhão eterna com Deus.

Vaticano, 29 de junho de 2010

Solenidade de São Pedro e São Paulo

[1] CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Ad gentes, 2; cf. também 5-6; 9-10; Const. dogm. Lumen gentium, 8; 13; 17; 23; Decr. Christus Dominus, 6.

[2] Cf. PAULO VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), 2; 4-5; 14; JOÃO PAULO II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), 1; ID., Cart. ap. Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), 1; 40; 58.

[3] BENTO XVI, falando aos bispos alemães durante a Jornada Mundial da Ju- ventude (2005), disse: «Sabemos que o secularismo e a descristianização estão a alastrar-se, que o relativismo cresce e que a influência da ética e da moral católicas diminui cada vez mais. Não poucas pessoas abandonam a Igreja ou então, se nela per- manecem, somente aceitam uma parte do ensinamento católico, escolhendo apenas determinados aspectos do cristianismo. Permanece preocupante a situação religiosa no Leste, onde sabemos que a maioria da população ainda não recebeu o batismo, não mantém qualquer contato com a Igreja e muitas vezes não tem nenhum conhe- cimento acerca de Cristo e da Igreja. [...] Diletos Irmãos, vós mesmos afirmastes [...]: ‘Nós tornamo-nos terra de missão’. [...] Deveríamos refletir seriamente sobre o modo como hoje podemos realizar uma verdadeira evangelização [...]. As pessoas não conhecem a Deus, não conhecem a Cristo. Existe um novo paganismo e não é suficiente que procuremos manter o rebanho já existente, embora isso seja muito importante; mas impõe-se esta grande interrogação: o que é realmente a vida? Penso que todos juntos devemos procurar descobrir novos modos de apresentar o Evange- lho ao mundo contemporâneo, anunciar de novo Cristo e estabelecer a fé » (Disc. no Seminário de Colônia, 21 de agosto de 2005). Ao Clero de Roma, Bento XVI, no início do pontificado, sublinhou a importância da Missão na Cidade, já em andamento (cf. Discurso ao Clero de Roma [13 de maio de 2005]). Em sua viagem ao Brasil, em maio de 2007, para abrir a 5a Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, cujo tema era « Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele os nossos povos tenham vida », o Papa encorajou os Bispos brasileiros a uma verdadeira «missão», voltada àqueles que, mesmo tendo sido batizados por nós, por diversas circunstâncias históricas não foram suficientemente evangelizados (cf. Discurso aos Bispos do Brasil na Catedral da Sé, em São Paulo [11 de maio de 2007]).

[4] Entre os textos da missão encontramos Jo 3,14; 4,34; 5,23-24.30.37; 6,39.44.57; 7,16.18.28; 8,18.26.29.42; 9,4; 11,42; 14,24; 17,3.18; 1 Jo 4,9.14.

[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 690.

[6] Cf. também JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 22.

7 Ibid., 12: «A referência a Cristo é, então, a chave absolutamente necessária para a compreensão das realidades sacerdotais ».

[8] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 28.

[9] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1582.

[10] Cf. BENTO XVI, Homilia para a Santa Missa Crismal (9 de abril de 2009); JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 12; 16.

[11] BENTO XVI, Discurso aos participantes da Plenária da Congregação para o Clero (16 de março de 2009). É, sem dúvida, o batismo que torna todos os fiéis « homens no- vos ». O sacramento da Ordem, portanto, se por um lado especifica e atualiza o que os presbíteros têm em comum com todos os batizados, por outro revela qual é a na- tureza própria do sacerdócio ordenado: permanecer em tudo orientado para Cristo, cabeça e pastor da Igreja, servir à nova criação que nasce do banho batismal: Vobis enim sum episcopus – afirma Agostinho – vobiscum sum christianus.

[12] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, 4-6. Sobre os tria munera debruça-se também longamente João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 26.

[13] JOÃO PAULO II, ibid., 32.

[14] Cf. ibid., 26; JOÃO PAULO II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), 67.

[15] Cf. A. VANHOYE, Prêtres anciens, prêtre nouveau selon le Nouveau Testament, Paris 1980, 346.

[16]  JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 12.

[17] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Ad gentes, 1.

[18] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Declar. Nostra aetate, 1; Const. past. Gaudium et spes, 24; cf. ibid., 29; 22; 92.

[19] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 45.

[20] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores gregis (16 de outubro de 2003), 9: « Trata-se efetivamente de funções intimamente ligadas entre si, que reciprocamen- te se explicam, condicionam e iluminam. Por isso mesmo, o Bispo, quando ensina, ao mesmo tempo santifica e governa o Povo de Deus; enquanto santifica, também ensina e governa; quando governa, também ensina e santifica. Santo Agostinho defi- ne a totalidade deste ministério episcopal como amoris officium ». O que é dito aqui dos bispos pode também ser aplicado, com as devidas distinções, aos presbíteros.

[21] Disc. no Seminário de Colônia (21 de agosto de 2005).

[22] Cf. JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in America (22 de janeiro de 1999), 12.

[23] Na alocução para a apresentação dos votos de Natal à Cúria Romana, em 21 de dezembro de 2007, Bento XVI disse: « Nunca se pode conhecer Cristo apenas teori- camente. Com grande doutrina pode-se conhecer tudo sobre as Sagradas Escrituras, sem nunca O ter encontrado. É parte integrante do facto de O conhecer, caminhar juntamente com Ele, entrar nos seus sentimentos, como diz a Carta aos Filipenses (2, 5). [...] O encontro com Jesus Cristo exige escuta, exige a resposta na oração e em praticar o que Ele nos diz. Com o conhecimento de Cristo chegamos ao conhecimen- to de Deus, e só a partir de Deus compreendemos o homem e o mundo, um mundo que de outra forma permanece uma pergunta sem sentido. Tornar-se discípulos de Cristo é portanto um caminho de educação para o nosso verdadeiro ser, para o justo ser homens ».

[24] CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 9.

[25] CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum ordinis, 10.

[26] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 28; Decr. Ad gentes, 39; PAULO VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), 68; JOÃO PAULO II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), 67.

[27] O Papa Bento XVI, estimulando os Bispos brasileiros a « encaminhar a ativi- dade apostólica como uma verdadeira missão dentro do rebanho que constitui a Igre- ja Católica », acrescentou que « trata-se efetivamente de não poupar esforços na busca dos católicos afastados e daqueles que pouco ou nada conhecem sobre Jesus Cristo. [...] Uma missão evangelizadora que convoque todas as forças vivas deste imenso rebanho. Meu pensamento dirige-se, portanto, aos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que se prodigalizam, muitas vezes com imensas dificuldades, para a difusão da verdade evangélica. [...] Neste esforço evangelizador, a comunidade eclesial se destaca pelas iniciativas pastorais, ao enviar, sobretudo às casas das periferias urbanas e do interior, seus missionários, leigos ou religiosos. [...] O povo pobre das periferias urbanas ou do campo precisa sentir a proximidade da Igreja, seja no socorro de suas necessidades mais urgentes, seja na defesa de seus direitos e na promoção comum de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres são os destinatários pri- vilegiados do Evangelho, e um Bispo, modelado segundo a imagem do Bom Pastor, deve estar particularmente atento a oferecer o divino bálsamo da fé, sem descuidar do ‘pão material’. Como pude evidenciar na Encíclica Deus caritas est, ‘a Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra’ » (Discurso aos Bispos do Brasil na Catedral da Sé, em São Paulo [11 de maio de 2007]).

[28] Cf. Código de Direito Canônico, cân. 229-§1 e 757.

[29] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum ordinis, 14.

[30] Cf. JOÃO PAULO II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), 44.

[31] BENTO XVI, Exort. ap. Sacramentum caritatis, 84.

[32] Cf. BENTO XVI, Discurso aos Bispos do Brasil na Catedral da Sé, em São Paulo (11 de maio de 2007), 3.

[33] Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Declaração Dominus Iesus (6 de agosto de 2000), 4.

[34] Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 35.

[35] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Diretório para o ministério e a vida dos presbí- teros Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), 43.

[36] Cf. BENTO XVI, Cart. enc. Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), 22; ID., Discurso aos Bispos do Brasil na Catedral da Sé, em São Paulo (11 de maio de 2007), 3.

[37] Cf. JOÃO PAULO II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), p83.

Segunda, 15 Novembro 2010 12:30

Reflexão: O que é o fim do mundo?

Escrito por Trídia Criação

O que é o fim do mundo? Quando será? De que forma? A última resposta cinematográfica a tivemos no filme 1012, onde nada e ninguém escapa, a não ser um pequeno grupo que consegue entrar dentro de uma aeronave onde já se encontram alguns espécimes do animais de nossa fauna global. Já no final do filme, qual nova Arca de Noé, a aeronave pousa numa porção emersa do continente asiático. Saímos do cinema com o sentimento de que tudo começará de novo. Fim e reinício!

Mas a pergunta sobre o fim do mundo continua e até agora nenhuma resposta satisfez e nehuma das possíveis ameaças abordadas pela mídia, apesar de levadas a sério por algumas pessoas, se concretizaram.

Poderíamos encarar a idéia fim do mundo de modo mais natural e sereno. Do mesmo modo que o dia termina e depois amanhece outro dia, do mesmo modo que vejo em meus filhos a renovação de minha família e minha continuação sobre a terra, o fim do mundo certamente será a redimensão desta vida, totalmente restaurada, redmida pela paixão e ressurreição de Jesus Cristo. Será tudo muito natural sem concretizar as expectativas catastróficas da imaginação literária e cinematográfica.
Catástrofes, já tivemos com terremotos, tsunamis, cataclismas e outras situações trágicas. Infelizmente, porque o homem ainda não transformou e dominou toda a natureza e alguns desses movimentos são tidos como insuperáveis pelo conhecimento limitado de nossas ciências e também por causa do egoísmo presente em nossa civilização essa situação ainda terá lugar em nosso mundo.
O Evangelho de hoje foi escrito cinquenta anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Lucas nos fala da experiência vivida pelas primeiras comunidades cristãs: destruição do Templo de Jerusalém, perseguição aos cristãos, guerras, catástrofes, acontecimentos já anunciados pelo Senhor. A reação da comunidade é de lamentação, perturbação, preocupação. Jesus diz para eles que tudo isso é apenas o início da dores – como em um parto - , mas o importante virá mais tarde e será a Vida plena, verdadeira. Portanto, as perseguições e todas as dores atuais não levarão à morte, mas sim à Vida! Importa não se preocupar, mas ser firme na fé, na fidelidade a Deus e na confiança de que a Providência age.
O Templo de Jerusalém, onde um sistema opressor havia se instalado, é destruído pelos romanos, mas o pobre, que sofria as violências decorrentes das injustiças praticadas pelos dirigentes do Templo, continua vivo. Os sistemas iníquos caem, mas os perseguidos por eles, sobrevivem.

Os sistemas de morte são desbaratados pela atuação inteligente dos cristãos. As mortes de Estêvão, de Tiago, a resistência de Paulo, mesmo sendo ocasiões de grande sofrimento, anunciam uma sociedade nova que vai surgindo, com seu modo de ser e de agir próprios.
Neste momento podemos recordar a paixão que há duas semanas sofrem nossos irmãos que estão no Iraque e que constituem a Igreja naquele país do Golfo Pérsico.

Finalizando nossa reflexão, temos a frase do Senhor, que encerra o Evangelho de Hoje: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”

Fonte: Rádio Vaticana

Terça, 09 Novembro 2010 13:03

Pobreza Bem-aventurada: Convicção da necessidade de Deus

Escrito por Trídia Criação

“A pobreza sociológica não é proclamada bem-aventurada por si mesma. Considerada em si mesma e como tal, ela seria um verdadeiro mal”, afirma o cardeal Geraldo Majella Agnelo.

O arcebispo de Salvador e primaz do Brasil comenta nesta segunda-feira, em artigo enviado à imprensa, sobre o Discurso da Montanha, no âmbito da leitura evangélica da liturgia desse domingo.

De acordo com Dom Geraldo Agnelo, a pobreza que é chamada bem-aventurada é a que vem da “simplicidade do coração, da convicção profunda da necessidade que o homem tem de Deus, da integridade da vida e da abertura aos outros”.

Ao abordar a bem-aventurança dos “mansos”, o arcebispo explica que “se trata de uma atitude muito vizinha da primeira bem-aventurança”, já que traz o sentido de “humildes, pobres, necessitados, pequenos”.

“A vida de Jesus é uma ilustração prática dessa bem-aventurança: Ele lutou contra a enfermidade, a fome e a dor, e ao mesmo tempo caminhou com segurança para a ressurreição”, explica.

Já a bem-aventurança dos “aflitos”, segundo o cardeal, deve ser compreendida “partindo do prêmio que a justifica: a consolação”. “A consolação é uma realidade messiânica, trazida pelo Messias, e abraça toda a dor pela qual o homem tem necessidade de ser consolado”.

Sobre os que têm fome e sede de justiça, Dom Geraldo explica que, “mais que uma atitude, aqui é chamada bem aventurada a tendência para desejar receber alguma coisa”.

“Homens que procuram a justiça, Deus a concederá aos que agora são oprimidos pela injustiça. A recompensa não é esperada somente para o momento do juízo final. A fome e a sede de justiça gritam para que cesse a atual injustiça. A esperança se vê satisfeita unicamente na aparição do Messias, que é chamado ‘Javé-nossa-justiça’”.

Ao abordar a bem-aventurança dos misericordiosos, o cardeal explica que sua conduta “está sobre a mesma linha da conduta de Deus: amor, compaixão, perdão, compreensão, ajuda”.

Bem-aventurados são ainda os puros de coração, pois Deus “está aberto a quem tem as mãos e o coração puros, uma pureza de vida, sem intenções distorcidas e inconfessáveis”.

“Os que trabalham pela paz entre os homens agem como Deus mesmo, porque Deus é o Deus da paz, que oferece a reconciliação ao pecador.”

E “os perseguidos por causa da justiça: a sorte que tocou ao Mestre toca também a seus discípulos, em todos os tempos”, afirma o cardeal.

Fonte: Zenit 

Segunda, 01 Novembro 2010 23:06

Reflexão: Dia de Finados

Escrito por Trídia Criação

Cidade do Vaticano, 1º nov - De acordo com a Liturgia, Domingo próximo refletiremos sobre nossa vocação à santidade, nosso último destino. Amanhã ela irá nos propor a reflexão sobre nossa finitude, que nasce em nossa mente e em nosso coração, quando perdemos alguém querido.

Faz parte de nossa natureza, de nosso modo de existir, algo que é antagônico entre si, ou seja nosso desejo de plenitude, de sermos eternos e ao mesmo tempo nossa incapacidade de pensarmos fora da categoria tempo. É impossível ao ser humano pensar no eterno, porque sempre vai se perguntar pelo depois, vai questionar se não será monótono. Ora, ao fazer essa pergunta ele demonstra sua incapacidade ontológica de usar o espaço mental para pensar no eterno, não como categoria, mas como sua própria realidade existencial.

Comemorar os fieis defuntos é refletir sobre nosso fim, ao mesmo tempo sobre nosso desejo de eternidade, como desejo profundo, como ânsia, inextirpável de nossa natureza, apesar de finita.
O livro do Apocalipse nos fala do fim da morte, do luto, das lágrimas, do fim do que era finito. Agora, pelo poder da ressurreição de Jesus Cristo, nossos anseios foram realizados, tornaram-se reais. Somos eternos! “Eis que faço novas todas as coisas”, isto é, eternas, sem caducar, sem envelhecer, sem a ação do tempo, que não existe mais.

São Paulo, na carta aos Romanos diz que fomos batizados na morte de Cristo e acrescenta: “Se, pois, se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. Por isso, sendo Cristo a Vida, todo nosso anseio de eternidade faz sentido e será realizado. Viveremos eternamente o amor, a alegria, na companhia de nossos entes queridos, porque do contrário não será felicidade.

O dia de amanhã, dedicado à reflexão sobre o término de nossa caminhada nesta vida, longe de nos tirar a alegria de ser, nos aumenta o júbilo porque não só fomos criados á imagem da Vida, que é Jesus, mas fomos resgatados, recriados, por sua morte e ressurreição, para a Vida eterna com Ele e com nossos entes queridos.

Fonte: Radio Vaticana

Domingo, 24 Outubro 2010 15:15

30º Domingo do Tempo Comum - Reflexão

Escrito por Trídia Criação

Evangelho do domingo: comprar Deus?

 

Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo de Oviedo

 

OVIEDO, sexta-feira, 22 de outubro de 2010 - Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, arcebispo de Oviedo, administrador apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lucas 18, 9-14), 30º do Tempo Comum.

* * *

Quem se encontrou com o Deus vivo alguma vez, desfrutou da sua amizade e saboreou seu amor, nunca se terá por justo, porque só Deus é justo; e aproximar-se do único Justo supõe fazer a experiência de comprovar nossa desproporcional diferença com relação a Ele. Saber-se pecador, reconhecer-se como não justo, não significa viver tristes, sem paz ou sem esperança, mas situar a segurança em Deus e não nas próprias forças ou em uma virtude hipócrita.

Alguém que verdadeiramente não orou nunca continuará precisando afirmar-se e convencer-se de sua própria segurança, já que a de Deus, a única fidedigna, não foi sequer intuída. E quando alguém se tem por justo e está inchado de sua própria segurança, isto é, quando vive em sua mentira, costuma maltratar seus próximos, desprezá-los "porque não chegam à sua altura", porque não estão no nível da "sua" santidade.

Temos, então, o retrato robô de quem, estando incapacitado para orar por estas três atitudes incompatíveis com a autêntica oração, como o fariseu da parábola, chega a acreditar que pode comprar de Deus a salvação. A moeda do pagamento seria sua arrogante virtude, sua santidade postiça. Até aqui o fariseu.

Mas havia outro personagem na parábola: o publicano, ou seja, um proscrito da legalidade, alguém que não fazia parte do censo dos bons. E, como em outras vezes, Jesus o mostrará como exemplo, não para ressaltar morbosamente sua condição pecadora, mas para que nela resplandeça a graça que pode fazer novas todas as coisas.

Aquele publicano não se sentia junto diante de Deus, nem tinha segurança em sua própria coerência, tampouco desprezava ninguém. Nem sequer a si mesmo. Ele só disse uma frase, lá do fundo do templo, na penumbra dos seus pecados: "Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!". Belíssima oração, tantas vezes repetida pelos muitos peregrinos que, em sua vida de escuridão, de erros, de horrores, talvez também tenham começado a receber gratuitamente uma salvação que não se pode comprar.

Jesus nos ensina a orar vivendo na verdade, não no disfarce de uma vida enganosa e enganada diante de todos, menos de Deus. Tratar de amizade com quem nos ama é reconhecer que só Ele é Deus, que nós somos uns pobres pecadores que receberam o dom de voltar a começar sempre, de voltar à luz, à alegria verdadeira, à esperança, para refazer aquilo que em nós e entre nós possa ter manchado a glória de Deus, o nome de um irmão ou a nossa dignidade.

Fonte: Zenit

Sábado, 16 Outubro 2010 15:47

29º Domingo do Tempo Comum

Escrito por Trídia Criação

Evangelho de domingo: o horário de Deus

 

Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm

 

OVIEDO, sábado, 16 de outubro de 2010 – Publicamos o comentário ao Evangelho do próximo domingo, 17 de outubro, XXIX do Tempo Comum (Lc 18, 1-8), redigido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo de Oviedo (Espanha).

* * *

O ensinamento de Jesus sobre a oração não era uma questão banal. Ele queria ensinar seus discípulos a orar de tal maneira que permanentemente pudessem estar falando com e escutando Quem está permanentemente disposto a acolher nossas palavras e nos dirigir as suas.

O Mestre lhes propõe uma parábola com dois personagens curiosos: um juiz e uma viúva. A pessoa mais desprotegida que demanda ajuda ao juiz menos indicado. Como se resolveria a demanda da pobre mulher perante a falta de misericórdia do injusto juiz?

Disse Jesus que aquele juiz de muita lei e pouco coração terminou por ceder à viúva e determinou fazer justiça perante o adversário desta. Mas não porque houvesse mudado no seu interior, simplesmente para proteger o seu exterior, quer dizer, por puro temor e para que o deixassem em paz. Aqui para o Senhor e diz aos discípulos: “escutai bem o que diz esse juiz iníquo!” Ao final fez justiça a uma pobre mulher que suplicava. Um homem que não foi capaz de fazer isso pela verdadeira razão: o serviço ao outro, o direito do outro, o amor ao outro, o fez por egoísmo, por amor a si mesmo... mas fez. E Deus, que fará? Como se comportará perante seus eleitos que dia e noite gritam a Ele e suplicam?

O cristão é aquele que precisamente aprende a viver a partir da inesgotável relação com seu Deus e Senhor, em um contínuo face a face perante seu bendito Rosto, com um constante saber-se visto pelos olhos do Outro. Esta Presença que é sempre companhia e jamais foge. Não tira dos cristãos a fadiga apaixonante do viver cada dia com suas luzes e sombras, mas permite vivê-lo de outro modo, a partir de outros Olhos que nos veem, a partir de outro Coração que nos ama e por nós palpita, e a partir de outra Vida que nos acolhe, presenteando-nos a felicidade.

A oração, como certeza de uma companhia daquela que nos fala e olha, é uma educação para a vida: também nós, cristão, podemos sofrer todas as provações, mas nunca com tristeza e desesperança. A circunstância pode não mudar, mas o nosso modo de olhá-la e vivê-la sim, porque sabemos que Deus nos acompanha sem interrupção, em horário completo e sem declínio.

Fonte: Zenit

Segunda, 11 Outubro 2010 10:17

Os dez leprosos, a gratidão do samaritano

Escrito por Trídia Criação

Juiz de Fora, 10 outubro - No Evangelho de domingo, Lc 17, 11-19, o ponto alto da narrativa é a fé do samaritano. O samaritano tem uma fé madura, que nasce da esperança, cresce na obediência à Palavra de Jesus e se manifesta na gratidão. Com isso, ele não só recebe a cura, mas é salvo. Sua vida chega à plenitude, ao reconhecer que, em Jesus, o amor de Deus leva os homens a viver na alegria da gratidão. A vida que Deus dá em Jesus Cristo é gratuita, é graça.
No tempo de Jesus, havia rivalidades entre os habitantes da Samaria (samaritanos) e os judeus. Estes desprezavam aqueles acirradamente. Esse ressentimento era infundado e Jesus quer mostrar que pessoas de bem não são, necessariamente, apenas os judeus. Aqueles de quem não gostamos ou que desprezamos, pode, de repente, ser melhor do que nós.
Há várias parábolas em que Jesus coloca o samaritano como aquele que age melhor, que está mais perto de Deus. Somos todos irmãos e precisamos agradecer a Deus, a cada manhã, pela oportunidade de mais um dia de vida.
Jesus não quer que desprezemos as pessoas, mas que entendamos que aquele que desprezamos pode nos dar uma lição de vida muito mais bonita do que a que levamos.
Os dez leprosos viram-se "curados" da sua doença, mas só um foi "salvo": aquele que, movido pela sua fé, deu glória a Deus e agradeceu a Jesus. São Lucas põe em relevo o fato de o leproso salvo ser um estrangeiro. Como estrangeiro era também Naamã, comandante do exército dos Arameus mas ferido de lepra. Naamã ficou curado quando, obedecendo à palavra do profeta Eliseu, foi lavar-se nas águas do rio Jordão. A Palavra de Deus põe em evidência que "a salvação do Senhor é para todos os povos". O destino universal da salvação e a fidelidade a Israel, que à primeira vista podem parecer em contradição, são na realidade dois aspectos inseparáveis e recíprocos do mesmo mistério salvífico: é precisamente a intensidade e a solidez do amor de Deus pelo povo por Ele escolhido que torna este amor uma "bênção" para todos os povos (cf. Gn 12, 3). A manifestação mais alta disto mesmo está na cruz de Cristo, o máximo sinal da sua dedicação às ovelhas perdidas da Casa de Israel e, simultaneamente, da redenção da humanidade inteira.
São Paulo nos diz que, quando ele está fraco, aí é que se torna forte porque é na fraqueza que mais precisamos da graça e da força de Deus. E é então que a recebemos em toda a sua plenitude.
No cumprimento das leis e prescrições mosaicas, os leprosos que encontram Cristo param "à distância", sentem-se impuros, fora da convivência humana; quem os toca também ficará impuro. O Senhor cura-os e manifesta-lhes a sua vontade salvífica com as palavras e com dois sinais muito consistentes: estende as mãos e toca-os. Cristo não aceita somente aproximar-se aos leprosos mas estende a sua mão, recebe-os e toca-os. Cristo identifica-se com o leproso, torna-se completamente solidário com eles. Destrói a impureza e a marginalização deles, manifesta a sua plena solidariedade com eles.
A solidariedade coincide com a autêntica espiritualidade, ou seja: a ação do Espírito Santo, o amor. O Espírito Santo é o amor de Deus que se faz história na misericórdia solidária do Pai Eterno que nos envia o seu Filho redentor através da sua encarnação pascal. O Espírito Santo é a intercomunicação trinitária infinita no amor. A Terceira Pessoa da Santíssima Trindade mostra-nos a natureza divina de Deus como Amor; um amor que é a entrega total do Pai ao seu Filho e do Filho ao seu Pai que, na sua total dedicação, fazem proceder deles a pessoa Amor, a pessoa Dom, que é o Espírito Santo. Portanto, o Espírito Santo significa a infinita posse pessoal individual tanto do Pai como do Filho em si próprios, posse que o coloca em condição de se poder doar de modo absoluto. Aqui encontra-se a essência da solidariedade. Quando falamos da solidariedade humana, esta é autêntica somente quando é feita à imagem de Deus. O homem torna-se filho de Deus somente através da solidariedade, que significa receber numa doação gratuita plena tudo aquilo que é e doá-lo também sem medida a Deus e aos outros.
Somente sob esta luz se pode entender o mistério da solidariedade redentora: de fato, a maior doação que se possa pensar é a doação até à morte: "Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). Desta doação, até à morte, o Pai cria a solidariedade da humanidade redimida. Consequentemente, a autêntica solidariedade é aquela a que não importa o risco da perda da vida até ao ponto de poder dar a vida pelos outros.

+ Eurico dos Santos VelosoArcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG.

Fonte: Rádio Vaticana

Sábado, 02 Outubro 2010 18:30

Munus Regendi - Catequese do Papa Bento XVI

Escrito por Trídia Criação

Munus regendi

Amados irmãos e irmãs!

O Ano sacerdotal está para terminar; por isso comecei nas últimas catequeses a falar sobre as tarefas essenciais do sacerdote, ou seja: ensinar, santificar e governar. Já falei disto em duas catequeses, numa sobre o ministério da santificação, sobretudo os Sacramentos, e noutra sobre o do ensino. Portanto, hoje vou falar sobre a missão do sacerdote de governar, de guiar, com a autoridade de Cristo, não com a própria, a porção do Povo que Deus lhe confiou.

Como compreender na cultura contemporânea tal dimensão, que implica o conceito de autoridade e tem origem no próprio mandato do Senhor de apascentar o rebanho? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa do Leste e do Oeste no século XX, tornaram o homem contemporâneo suspeitoso em relação a este conceito. Uma suspeita que, com frequência, se traduz em defender como necessário o abandono de qualquer autoridade, que não provenha exclusivamente dos homens, lhes seja submetida e por eles controlada. Mas precisamente o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com vigor que a autoridade, em qualquer âmbito, quando é exercida sem uma referência ao Transcendente, se prescindir da Autoridade suprema, que é Deus, acaba inevitavelmente por se voltar contra o homem. É importante então reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e só um meio e que, necessariamente e em cada época, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com a própria intangível dignidade e chamada a realizar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade diante de Deus, do Criador. Uma autoridade tão intensa, que tenha como única finalidade servir o verdadeiro bem das pessoas e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só é alheia aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, rumo à salvação.

A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo o poder no Céu e na terra (cf. Mt 28, 18). De facto, através dos Pastores da Igreja Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem nesta sua missão de se ocupar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, cuidassem "para que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e activa e à liberdade com que Cristo nos libertou" (Presbyterorum ordinis, 6). Portanto, cada Pastor é o meio através do qual o próprio Cristo ama os homens: é mediante o nosso ministério – queridos sacerdotes – é através de nós que o Senhor alcança as almas, as instrui, guarda e guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz: "Seja portanto empenho de amor apascentar o rebanho do Senhor" (123, 5); esta é a norma suprema dos ministros de Deus, um amor incondicionado, como o do Bom Pastor, cheio de alegria, aberto a todos, atento ao próximo e solícito em relação aos distantes (cf. S. Agostinho, Discurso 340, 1; Discurso 46, 15), delicado para com os mais débeis, os pequeninos, os simples, os pecadores, para manifestar a misericórdia infinita de Deus com as palavras alentadoras da esperança (cf. Id., Carta 95, 1).

Se esta tarefa pastoral se funda no Sacramento, contudo a sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3, 15) é preciso um radicamento profundo na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação sacerdotal, uma disponibilidade incondicionada a conduzir o rebanho confiado aonde o Senhor quer e não na direcção que, aparentemente, parece mais conveniente ou mais fácil. Antes de tudo, isto exige a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que o próprio Cristo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. De facto, ninguém é realmente capaz de apascentar a grei de Cristo, se não viver uma obediência profunda e real a Cristo e à Igreja, e a própria docilidade do Povo aos seus sacerdotes depende da docilidade dos presbíteros a Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo d'Ele, o conformar a própria vontade com a vontade de Cristo.

Nos últimos decénios, utilizou-se muitas vezes o adjectivo "pastoral" quase em oposição ao conceito de "hierárquico", assim como, na mesma contraposição, foi interpretada também a ideia de "comunhão". Talvez seja este o ponto sobre o qual pode ser útil uma breve observação sobre a palavra "hierarquia", que é a designação tradicional da estrutura de autoridade sacramental na Igreja, ordenada segundo os três níveis do Sacramento da Ordem: episcopado, presbiterado, diaconado. Prevalece na opinião pública, para esta realidade "hierárquica", os elementos de subordinação e jurídico; por isso para muitos a ideia de hierarquia parece estar em contraste com a flexibilidade e com a vitalidade do sentido pastoral e também ser contrária à humildade do Evangelho. Mas este é um sentido da hierarquia compreendido mal, historicamente também causado por abusos de autoridade e por carreirismo, que são precisamente abusos e não derivam do ser próprio da realidade "hierárquica". A opinião comum é que "hierarquia" é sempre algo relacionado com o domínio e assim não correspondente ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas, como eu disse, esta é uma interpretação errada, que tem origem em abusos da história, mas não corresponde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia. Comecemos com a palavra. Geralmente, diz-se que o significado da palavra hierarquia seria "domínio sagrado", mas o verdadeiro significado não é este, é "origem sagrada", ou seja: esta autoridade não provém do próprio homem, mas tem origem no sagrado, no Sacramento; submete portanto a pessoa à vocação, ao mistério de Cristo; faz do indivíduo um servo de Cristo e só como servo de Cristo ele pode governar, guiar para Cristo e com Cristo. Por isso quem entra na Ordem sagrada do Sacramento, a "hierarquia", não é um autocrata, mas entra num vínculo novo de obediência a Cristo: está ligado a Ele em comunhão com os outros membros da Ordem sagrada, do Sacerdócio. E também o Papa ponto de referência de todos os outros Pastores e da comunhão da Igreja não pode fazer o que quiser; ao contrário, o Papa é guardião da obediência a Cristo, à sua palavra resumida na "regula fidei", no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e à sua Igreja. Hierarquia implica por conseguinte um tríplice vínculo: antes de tudo com Cristo e com a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois o vínculo com os outros Pastores na única comunhão da Igreja; e, por fim, o vínculo com os fiéis confiados a cada um, na ordem da Igreja.

Compreende-se portanto que comunhão e hierarquia não são contrárias uma à outra, mas condicionam-se. São juntas uma só coisa (comunhão hierárquica). Portanto, o Pastor é tal precisamente guiando e guardando a grei, e por vezes impedindo que ela se disperse. Fora de uma visão clara e explicitamente sobrenatural, não é compreensível a tarefa de governar, própria dos sacerdotes. Ela, ao contrário, apoiada pelo verdadeiro amor à salvação de cada fiel, é particularmente preciosa e necessária também no nosso tempo. Se a finalidade é levar o anúncio de Cristo e guiar os homens ao encontro salvífico com Ele para que tenham vida, a tarefa de guiar configura-se como um serviço vivido numa doação total para a edificação do rebanho na verdade e na santidade, muitas vezes indo contracorrente e recordando que quem é o maior deve fazer-se como o mais pequeno, e quem governa, como aquele que serve (cf. Lumen gentium, 27).

De onde pode tirar hoje um sacerdote a força para a prática do próprio ministério, em plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total à grei? A resposta é uma só: em Cristo Senhor. O modo de governar de Jesus não é o do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do Lava-pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra o seu ápice no madeiro da Cruz, que se torna juízo para o mundo e ponto de referência para a prática da autoridade, que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, e entre eles São João Maria Vianney, exerceram com amor e dedicação a tarefa de cuidar da porção do Povo de Deus que lhes foi confiada, mostrando também que eram homens fortes e determinados, com o único objectivo de promover o verdadeiro bem das almas, capazes de pagar em primeira pessoa, até ao martírio, para permanecer fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

Queridos sacerdotes, "apascentai o rebanho que Deus vos confiou, velando por ele, não constrangidos, mas de boa vontade [...], como modelos do vosso rebanho" (1 Pd 5, 2). Portanto, não tenhais medo de guiar para Cristo cada um dos irmãos que Ele vos confiou, na certeza de que cada palavra e atitude, se vierem da obediência à vontade de Deus, darão fruto; sabei viver apreciando as qualidades e reconhecendo os limites da cultura na qual estamos inseridos, com a firme certeza de que o anúncio do Evangelho é o maior serviço que se pode prestar ao homem. De facto, não há bem maior, nesta vida terrena, do que conduzir os homens para Deus, despertar a fé, elevar o homem da inércia e do desespero, dar a esperança que Deus está próximo e guia a história pessoal e do mundo: é este, em suma, o sentido profundo e último da tarefa de governar que o Senhor nos confiou. Trata-se de formar Cristo nos crentes, através daquele processo de santificação que é conversão dos critérios, da escala de valores, de atitudes, para deixar que Cristo viva em cada fiel. São Paulo resume assim a sua acção pastoral: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl 4, 19).

Queridos irmãos e irmãs, gostaria de vos convidar a rezar comigo, Sucessor de Pedro, que tenho uma tarefa específica no governar a Igreja de Cristo, assim como por todos os vosos Bispos e sacerdotes. Rezai por que saibamos ocupar-nos de todas as ovelhas, também das perdidas, da grei que nos foi confiada. A vós, queridos sacerdotes, dirijo um cordial convite para as Celebrações conclusivas do Ano sacerdotal, nos próximos dias 9, 10 e 11 de Junho, aqui em Roma: meditaremos sobre a conversão e missão, sobre o dom do Espírito Santo e sobre a relação com Maria Santíssima, e renovaremos as nossas promessas sacerdotais, apoiados por todo o Povo de Deus. Obrigado!

Audiência de 26 de maio de 2010.

Fonte: www.vatican.va

Sábado, 02 Outubro 2010 18:25

As ordens mendicantes - Catequese do Papa Bento XVI

Escrito por Trídia Criação

As Ordens Mendicantes

Caros irmãos e irmãs

No início do novo ano olhemos para a história do Cristianismo, para ver como se desenvolve uma história e como ela pode ser renovada. Nela podemos ver que os santos, guiados pela luz de Deus, são os autênticos reformadores da vida da Igreja e da sociedade. Mestres com a palavra e testemunhas com o exemplo, eles sabem promover uma renovação eclesial estável e profunda, porque eles mesmos são profundamente renovados, estão em contacto com a verdadeira novidade: a presença de Deus no mundo. Esta realidade consoladora, ou seja, que em cada geração nascem santos e trazem a criatividade da renovação, acompanha constantemente a história da Igreja no meio das tristezas e dos aspectos negativos do seu caminho. Com efeito, século após século vemos nascer também as forças da reforma e da renovação, porque a novidade de Deus é inexorável e dá sempre nova força para ir em frente. Assim aconteceu também no século XIII, com o nascimento e o desenvolvimento extraordinário das Ordens Mendicantes: um modelo de grande renovação numa nova época histórica. Elas foram chamadas assim, pela sua característica de "mendigar", ou seja, de recorrer humildemente ao sustento económico das pessoas para viver o voto da pobreza e desempenhar a sua missão evangelizadora. Das Ordens Mendicantes que surgiram naquele período, as mais famosas e as mais importantes são os Frades Menores e os Padres Pregadores, conhecidos como Franciscanos e Dominicanos. Eles foram chamados assim pelo nome dos seus Fundadores, respectivamente Francisco de Assis e Domingos de Guzman. Estes dois grandes Santos tiveram a capacidade de ler com inteligência "os sinais dos tempos", intuindo os desafios que a Igreja do seu tempo devia enfrentar.

Um primeiro desafio era representado pela expansão de vários grupos e movimentos de fiéis que, embora inspirados por um desejo legítimo de vida cristã autêntica, se punham com frequência fora da comunhão eclesial. Estavam em profunda oposição com a Igreja rica e bonita que se tinha desenvolvido precisamente com o florescimento do monaquismo. Nas recentes Catequeses reflecti sobre a comunidade monástica de Cluny, que atraía cada vez mais jovens e portanto forças vitais, assim como bens e riquezas. Logicamente, num primeiro momento desenvolveu-se assim uma Igreja rica de propriedades e inclusive de imóveis. A esta Igreja opôs-se a ideia de que Cristo veio à terra pobre e que a verdadeira Igreja deveria ser precisamente a Igreja dos pobres; assim, o desejo de uma verdadeira autenticidade cristã opôs-se à realidade da Igreja empírica. Trata-se dos chamados movimentos pauperistas da Idade Média. Eles contestavam asperamente o modo de viver dos sacerdotes e dos monges dessa época, acusados de ter traído o Evangelho e de não praticar a pobreza como os primeiros cristãos, e estes movimentos opuseram ao ministério dos Bispos uma sua "hierarquia paralela". Além disso, para justificar as próprias escolhas, difundiram doutrinas incompatíveis com a fé católica. Por exemplo, o movimento dos Cátaros ou Albigenses voltou a propor antigas heresias, como a desvalorização e o desprezo do mundo material – a oposição contra a riqueza torna-se rapidamente oposição contra a realidade material enquanto tal – a negação da vontade livre, e depois o dualismo, a existência de um segundo princípio do mal equiparado com Deus. Estes movimentos tiveram sucesso, especialmente na França e na Itália, não só pela sua organização sólida, mas também porque denunciavam uma desordem real na Igreja, causada pelo comportamento pouco exemplar de vários representantes do clero.

Na esteira dos seus Fundadores, os Franciscanos e os Dominicanos mostraram, ao contrário, a verdade do Evangelho como tal, sem se separar da Igreja; mostraram que a Igreja permanece o verdadeiro e autêntico lugar do Evangelho e da Escritura. Aliás, Domingos e Francisco hauriram a força do seu testemunho precisamente da sua comunhão com a Igreja e com o papado. Com uma escolha totalmente original na história da vida consagrada, os Membros destas Ordens não só renunciavam à posse de bens pessoais, como faziam os mongens desde a antiguidade, mas nem sequer queriam que terrenos e bens imóveis passassem para o nome da comunidade. Assim tencionavam dar testemunho de uma vida extremamente sóbria, para ser solidários com os pobres e confiar apenas na Providência, viver todos os dias da Providência, da confiança de se colocar nas mãos de Deus. Este estilo pessoal e comunitário das Ordens Mendicantes, unido à adesão total ao ensinamento da Igreja e à sua autoridade, foi muito apreciado pelos Pontífices dessa época, como Inocêncio III e Honório III, que ofereceram o seu pleno apoio a estas novas experiências eclesiais, reconhecendo nelas a voz do Espírito. E os frutos não faltaram: os grupos pauperistas que se tinham separado da Igreja voltaram a entrar na comunhão eclesial ou, lentamente, redimensionaram-se até desaparecer. Também hoje, embora vivamos numa sociedade em que muitas vezes prevalece o "ter" sobre o "ser", somos muito sensíveis aos exemplos de pobreza e de solidariedade, que os crentes oferecem com opções intrépidas. Também hoje não faltam iniciativas semelhantes: os movimentos, que começam realmente a partir da novidade do Evangelho e vivem-no com radicalidade no hoje, colocando-se nas mãos de Deus, para servir o próximo. O mundo, como recordava Paulo VI na Evangelii nuntiandi, ouve de bom grado os mestres, quando eles são também testemunhas. Trata-se de uma lição que nunca pode ser esquecida na obra de difusão do Evangelho: viver primeiro aquilo que se anuncia, ser espelho da caridade divina.

Franciscanos e Dominicanos foram testemunhas, mas inclusive mestres. Com efeito, outra exigência difundida na sua época era a da educação religiosa. Não poucos fiéis leigos, que habitavam nas cidades em vias de grande expansão, desejavam praticar uma vida cristã espiritualmente intensa. Portanto, procuravam aprofundar o conhecimento da fé e ser orientados no árduo mas entusiasmante caminho da santidade. Felizmente, as Ordens Mendicantes souberam ir ao encontro também desta necessidade: o anúncio do Evangelho na simplicidade e na sua profundidade e grandeza erra uma finalidade, talvez a finalidade principal deste movimento. Efectivamente, dedicaram-se à pregação com grande zelo. Os fiéis eram muito numerosos, com frequência verdadeiras multidões, que se congregavam para ouvir os pregadores nas igrejas e nos lugares ao ar livre, pensemos por exemplo em Santo Agostinho. Tratavam-se temas próximos da vida das pessoas, sobretudo a prática das virtudes teologais e morais, com exemplos concretos, facilmente compreensíveis. Além disso, ensinavam-se formas para alimentar a vida de oração e de piedade. Por exemplo, os Franciscanos difundiram muito a devoção à humanidade de Cristo, com o compromisso de imitar o Senhor. Então, não surpreende o facto de que os fiéis eram numerosos, homens e mulheres que escolhiam fazer-se acompanhar no caminho cristão por frades Franciscanos e Dominicanos, directores espirituais e confessores procurados e estimados. Assim nasceram associações de fiéis leigos que se inspiravam na espiritualidade de São Francisco e de São Domingos, adaptada à sua condição de vida. Trata-se da Terceira Ordem, tanto franciscana como dominicana. Por outros termos, a proposta de uma "santidade laica" conquistou muitas pessoas. Como recordou o Concílio Ecuménico Vaticano II, o chamamento à santidade não está reservado a alguns, mas é universal (cf. Lumen gentium, 40). Em todas as condições de vida, segundo as exigências de cada uma delas, encontra-se a possibilidade de viver o Evangelho. Também hoje cada cristão deve tender para a "medida alta da vida cristã", seja qual for a condição de vida a que pertence!

A importância das Ordens Mendicantes aumentou tanto na Idade Média, que Instituições laicas, com as organizações do trabalho, as antigas corporações e as próprias autoridades civis recorriam com frequência aos conselhos espirituais dos Membros de tais Ordens para a redacção dos seus regulamentos e, às vezes, para a solução de contrastes internos ou externos. Os Franciscanos e os Dominicanos tornaram-se os animadores espirituais da cidade medieval. Com grande intuição, eles puseram em acção uma estratégia pastoral adequada às transformações da sociedade. Dado que muitas pessoas se transferiam dos campos para as cidades, eles construíram os seus conventos já não em áreas rurais, mas urbanas. Além disso, para desempenhar a sua actividade em benefício das almas, era necessário deslocar-se em conformidade com as exigências pastorais. Com outra escolha totalmente inovativa, as Ordens Mendicantes abandonaram o princípio de estabilidade, clássico do monaquismo antigo, para escolher outro modo. Menores e Pregadores viajavam de um lugar para outro, com fervor missionário. Por conseguinte, organizaram-se de modo diverso em relação à maior parte das Ordens monásticas. No lugar da autonomia tradicional de que gozava cada mosteiro, eles deram mais importância à Ordem enquanto tal e ao Superior-Geral, bem como à estrutura das províncias. Assim os Mendicantes estavam mais dispostos às exigências da Igreja Universal. Esta flexibilidade tornou possível o envio dos frades mais preparados para o cumprimento de missões específicas e as Ordens Mendicantes chegaram à África setentrional, ao Médio Oriente e ao Norte da Europa. Com esta flexibilidade, o dinamismo missionário foi renovado.

Outro grande desafio era representado pelas transformações culturais em curso naquele período. Novas questões estimularam o debate nas universidades, que nasceram no final do século XII. Menores e Pregadores não hesitaram em assumir também este compromisso e, como estudantes e professores, entraram nas universidades mais famosas dessa época, erigiram centros de estudos, produziram textos de grande valor, deram vida a verdadeiras escolas de pensamento, foram protagonistas da teologia escolástica no seu período melhor e incidiram significativamente no desenvolvimento do pensamento. Os maiores pensadores, S. Tomás de Aquino e São Boaventura, eram mendicantes e trabalharam precisamente com este dinamismo na nova evangelização, que renovou também a coragem do pensamento, do diálogo entre razão e fé. Também hoje existe uma "caridade da e na verdade", uma "caridade intelectual" a exercer, para iluminar as inteligências e conjugar a fé com a cultura. Caros fiéis, o compromisso assumido pelos Franciscanos e pelos Dominicanos nas universidades medievais é um convite a tornar-se presente nos lugares de elaboração do saber, para propor, com respeito e convicção, a luz do Evangelho sobre as questões fundamentais que se referem ao homem, à sua dignidade e ao seu destino eterno. Pensando no papel dos Franciscanos e Dominicanos na Idade Média, na renovação espiritual que suscitaram, no sopro de vida nova que comunicaram no mundo, um monge disse: "Naquela época o mundo envelhecia. Surgiram duas Ordens na Igreja, cuja juventude renovaram, como a de uma águia" (Burchard d'Ursperg, Chronicon).

Estimados irmãos e irmãs, invoquemos precisamente no início deste ano o Espírito Santo, eterna juventude da Igreja: ele faça com que todos sintam a urgência de oferecer um testemunho coerente e corajoso do Evangelho, a fim de que nunca faltem santos, que façam resplandecer a Igreja como esposa sempre pura e bela, sem manchas nem rugas, capaz de atrair irresistivelmente o mundo para Cristo, para a sua salvação.

Audiência de 13 de janeiro de 2010.

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