Segunda, 19 Abril 2010 20:05

Vivência da fé na cultura digital

 

Olá, jovens! Queremos iniciar o nosso blog com uma mensagem do Papa Bento XVI para nós:
“(...) Dirijo-me especialmente aos jovens católicos, para motivá-los a levarem para o mundo digital o testemunho da sua fé. Sintam-se comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais está a vossa vida.”*
É partindo deste pedido que nos movemos a promover a Cultura da Vida também nos ambientes virtuais, com textos, vídeos, formações e discussões voltados para nós e nosso potencial jovem.
Aproveitemos este precioso ambiente da internet para demonstrar - com palavras e ações - a preciosidade de cada vida humana!
Contamos com a sua participação, pois o que poderíamos fazer sozinhos?

Olá, jovens!

Queremos iniciar o nosso blog com uma mensagem do Papa Bento XVI para nós:

“(...) Dirijo-me especialmente aos jovens católicos, para motivá-los a levarem para o mundo digital o testemunho da sua fé. Sintam-se comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais está a vossa vida.”*

É partindo deste pedido que nos movemos a promover a Cultura da Vida também nos ambientes virtuais, com textos, vídeos, formações e discussões voltados para nós e nosso potencial jovem.

Aproveitemos este precioso ambiente da internet para demonstrar - com palavras e ações - a preciosidade de cada vida humana!

Contamos com a sua participação, pois o que poderíamos fazer sozinhos?

 * Mensagem do Papa Bento XVI para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais

André Said

"São insensatos por natureza todos os homens que ignoram a Deus, os que, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer aquele que é; nem tampouco, pela consideração das obras, chegaram a reconhecer o Artífice." (Sb 13,1)

Deus-_Michelangelo_2Nossa! Que dizer além disso? Precisamos de mais Metafísica! Olhar além das aparências, buscar as essências e além delas o Criador! Que hoje, extasiados pela natureza que nos cerca possamos ver a beleza infinitamente superior de quem a Criou!

Acho que boa parte dos problemas do nosso mundo estão relacionados com nossa incapacidade de admirar a beleza e de se enamorar dela. Quando contemplamos por exemplo o mistério e a beleza de uma vida nascente - verdadeiro espetáculo misterioso e irrepetível que ocorre oculto aos olhos humanos no seio da mãe, mas que a ciência permite em parte contemplar - me pergunto como não nos enamoramos da beleza? Como não contemplar essa maravilha da natureza que se produz e desenvolve segundo desígnios para nós ainda de todo não revelados? Mais: como não pensar em Deus, verdadeiro realizador dessa magnífica obra humana? Como maquinar muitas vezes a destruição dessa beleza que não nos pertence, pois não a fizemos? Como pensar que destruí-la significa liberdade e bem? Como é possível transformar o que deveria ser amável em objeto de medo, de ameaça, de ódio a ponto de achar melhor sua eliminação que acolhida?

Estamos ainda muito enamorados do que somos capazes de fazer, das nossas próprias produções, que não podemos ver o Artífice maior? Nossa capacidade é somente análoga a d'Ele, nós transformamos e Ele faz do nada! Nosso olhar egoísta nos coloca cegos ao Criador e na medida que não o reconhecemos perdemos o sentido do que somos, pois nossa verdade depende essencialmente do reconhecimento d'Aquele que nos criou. A vida só será respeitada no momento em que nos rendermos a sua beleza!

Aos que se perderam num materialismo ou num naturalismo que não transcende a Escritura exorta: "Se, encantados por sua beleza, tomaram estas criaturas por deuses, reconheçam quanto o seu Senhor está acima delas: pois foi o autor da beleza quem as criou. Se ficaram maravilhados com o seu poder e a sua atividade, concluam daí quanto mais poderoso é aquele que as formou: de fato, partindo da grandeza e da beleza das criaturas, pode-se chegar a ver, por analogia, aquele que as criou." (Sb 13, 3-5). Que possamos buscar essa Beleza Criadora, possamos amá-la, seguí-la, comungá-la! Para que nos aproximando d'Ela possamos reconhecer verdadeiramente o que há de belo em nós, por nos assemelhar-mos a Ela.

Boa contemplação para todos!

Pe. Eduardo Peters

Quinta, 10 Novembro 2011 09:25

O Reino de Deus está entre vós.

“O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está entre vós”.

santa_ceiaAs Palavras de Jesus no Evangelho de hoje nos permitem uma reflexão sobre a natureza do Reino. O Reino de Deus não se apresenta, nem se apresentará como um reino mundano. Ele não é uma estrutura de governo, nem um estabelecimento da sociedade, ele é antes de tudo Amor! Jesus nesse Evangelho fala dele mesmo, mas ao fazer isso fala do amor de Deus. O Reino é o próprio Jesus, Ele e tudo o que Ele significa para nós. Ele é o caminho para se estabelecer o reinado de Deus. Seu exemplo de obediência no amor a vontade do Pai, suas obras, suas palavras, se tornam paradigma para quem busca a vida em Deus. O Reinado de Deus está ENTRE nós quando nossos relacionamentos traduzem nosso discipulado de Jesus. Quando estabelecemos a comunhão fruto do Espírito de Jesus, quando nos reunimos por seu amor.

Me parece que o reinado se estabelece sob o patrocínio do amor de Deus. Tudo o que causa desunião, ódio, rivalidades, ressentimentos, discórdias, pecado está fora do reinado de Deus. Ainda precisamos caminhar muito para que o reinado se manifeste no modo como nos relacionamos entre nós. Amor é acolhida do outro e nós ainda ouvimos falar de aborto como direito; amor é respeito pelo outro e nós falamos de eugenia, considerando que existem seres humanos melhores que outros, como quando se qualifica o anencéfalo como um sem direito a vida; amor é doação de si e nós testemunhamos ainda um império do egoísmo que pensa antes na determinação de direitos individuais do que no bem comum.

Salva-nos Senhor, pois o teu amor é mais forte do que a morte! Salva-nos, porque sem o teu auxílio somos cegos para o outro! Salva-nos Senhor, pois sem a tua graça não podemos! Salva-nos de nós mesmos, para que olhando para o outro que precisa ser amado, aprendamos a olhar para ti! Venha o teu Reinado de Amor!

Quarta, 09 Novembro 2011 09:29

O Templo é casa de oração

 

"Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!"

vendilhoes_do_temploO Templo não é lugar de comércio. Não se trata simplesmente de observar ou criticar a loja que vende objetos nas Igrejas ou de perceber realidades que ferem o espaço sagrado do templo, existem outros tipos de comércio que precisam parar:

às vezes na nossa espiritualidade praticamos um verdadeiro comércio espiritual, pois achamos que nossa oração é moeda de troca, sugerindo ao Senhor que nos dê o que queremos procurando convencê-lo de que somos bons e de que merecemos ganhar o que pedimos. As graças da parte Deus podem muito bem vir das nossas súplicas, quando elas bem orientadas reconhecem o que nós somos e o que Deus é. É a benevolência de Deus que se aproxima da nossa necessidade como presença amorosa, isso não pode ser 'pago', mas reconhecido nas nossas orações.

o comércio milagreiro que usa da fé do povo para extorquir é uma das formas mais odiosas de 'religião'. É um pecado que clama aos céus pois muitas vezes se tira dos pequeninos abusando de sua boa vontade e de sua boa fé, minando a sua esperança diante de uma graça que não vem porque resulta uma ilusão bem cultivada por engandores da fé.

o comércio do corpo, que é o verdadeiro templo do Espírito. Talvez este seja o templo mais profanado nos nossos tempo. O corpo, figura (porque imagem) do que Deus é se vê cada vez mais desfigurado. Quantos templos mal cuidados, quanto despudor, quanta profanação! O verdadeiro respeito ao corpo não corresponde ao culto dele mesmo, mas em oferecer um culto ao Senhor através dele. Essa é a casa de oração por excelência, essa é a morada de Deus, é o lugar de adoração dos verdadeiros adoradores de Deus, uma vez que somos chamados a nos oferecer como hóstias vivas e agradáveis ao Senhor.

Senhor, mostra-nos como alcançar o Teu zelo, que ele também nos consuma a ponto de respeitar-mos o que é sagrado.
Paz!

aliancasO problema da equiparação da união homoafetiva ao matrimônio é muito mais complexo do que a questão de viabilizar às uniões homossexuais direitos previdenciários ou possibilidade de herança ou questões relacionadas com acesso de parceiros sexuais a planos de saúde; a equiparação nos coloca diante da possibilidade de falsear a verdade natural do que representa a instituição familiar. O Catecismo da Igreja Católica nos recorda que “compete a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar a sua identidade sexual. A diferença e a complementaridade físicas, morais e espirituais orientam-se para os bens do matrimônio e para o progresso da vida familiar. A harmonia do casal e da sociedade depende, em parte, da maneira como são vividos, entre os sexos, a complementaridade, a necessidade mútua e o apoio recíproco” (CIC 2333). Com isso o Catecismo só afirma aquilo que é constatável na relação esponsal de onde de modo natural origina-se a família. Tal realidade nos coloca diante da verdade natural de que de uma relação homoafetiva não pode advir de modo natural a constituição de uma família, não sendo portanto possível equiparar uma relação com a outra, pois são relações de ordem completamente diferentes.

Com isso a Igreja não se coloca numa posição preconceituosa, o mesmo Catecismo nos exorta em relação aos homossexuais a acolhê-los “com respeito, compaixão e delicadeza. Evitando-se em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta.” (CIC 2358). Como justiça é, segundo definição do jurista romano Ulpiano (sec. II), “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, não consideramos que a união homoafetiva goze das mesmas características e prerrogativas que uma união conjugal, portanto o “suum” jurídico do matrimônio é e sempre será distinto de um “suum” da relação homoafetiva. Diante disso devemos fazer distinção de natureza entre uma relação e outra ao invés de equiparação. Em toda analogia realizada entre as duas relações encontraremos mais dissonâncias do que consonância.

A CNBB, em nota recente, recorda diante do ocorrido que “é atribuição do Congresso Nacional propor e votar leis, cabendo ao governo garanti-las. Preocupa-nos ver os poderes constituídos ultrapassarem os limites de sua competência, como aconteceu com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal. Não é a primeira vez que no Brasil acontecem conflitos dessa natureza que comprometem a ética na política.” (Nota da CNBB sobre decisão do STF para união homoafetiva).

Pe. Eduardo Peters

 

Arcebispo de Braga faz reflexão sobre o tema em jornada da família

 

sagrada_familiaROMA, segunda-feira, 31 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – “Educar e testemunhar segundo a Boa-Nova de Jesus Cristo é uma verdadeira emergência na missão da Igreja”, afirma o arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga.

Em uma reflexão apresentada na VI Jornada da Família, no arciprestado de V. Nova de Famalicão, nesse sábado, o arcebispo destacou que hoje se vive “num tempo novo que exige de nós o esforço contínuo de repensar os modelos educativos”.

Dom Jorge Ortiga adverte do risco das correntes pedagógicas do facilitismo e da lei do menor esforço no âmbito da educação. Incentivam-se “pedagogias centradas na auto-realização individual sem vislumbrar uma cultura da fraternidade e da partilha de valores”.

Trata-se de um panorama que contagiou a família, a escola e a própria Igreja.

“A família, na sua forma materna e paterna, já não ousa contrariar as crianças e permite precocemente, por demissão ou por omissão, todo o tipo de experiências que desequilibram o crescimento integral da pessoa.”

Segundo o arcebispo, “é preciso clareza e comunhão no exercício do testemunho parental. Onde está um sim também pode estar um não”.

Já a escola, “na perspectiva redutora de uma formação pluricultural, não tem sido capaz de delinear um projeto educativo respeitador e promotor de uma cultura verdadeiramente humana”.

“Impõe-se a todo o custo uma ideologia educativa estatal com a consequente eliminação silenciosa de todas as propostas educativas que orientem para os valores do testemunho, da autoridade, da seriedade, da vontade de trabalho e de iniciativa, da fé e da visão cristã do mundo.”

Dom Jorge Ortiga também assinala que a Igreja, “na sua tarefa irrenunciável de apresentar um projeto educativo à luz do pensamento cristão, nem sempre tem sido capaz de propor um itinerário de crescimento e de diálogo entre a fé e a razão”.

“A formação dos agentes educativos da Igreja é urgentíssima porque estamos a perder oportunidades únicas de testemunhar com a vida o anúncio primordial da fé cristã”, afirma.

Para enfrentar essa situação, o arcebispo indica alguns “ministérios possíveis”, como a utilização das novas tecnologias, a criação de equipes de jornalismo para elaborar boletins paroquiais, a formação de equipes de voluntariado de ação social, a promoção de iniciativas de índole cultural onde o pensamento cristão seja apresentado com criatividade e originalidade.

Segundo o arcebispo, não se pode exigir dos católicos que “venham somente à Eucaristia dominical, é preciso que a comunidade acolha com a alegria as várias sinergias e dons ao serviço do Evangelho”.

Ensino

Dom Jorge Ortiga partilhou sua preocupação da redução da educação em Portugal “a uma certa demagogia ideológica”.

“Ultimamente verifica-se uma polarização da perspectiva economicista da educação. Por nosso lado não podemos deixar de dizer que o ensino privado não pode ser visto como contraponto do estatal.”

O ensino privado – prossegue o arcebispo – “é ensino público na medida em que está ao serviço de toda a sociedade na formação dos quadros diretivos e do tecido produtivo do nosso país”.

“Certamente que a questão econômica não é secundária, mas é necessário garantir o direito das famílias poderem escolher o modelo educativo para os seus filhos.”

O prelado fez um apelo “a uma educação integral resultante de testemunho de vida e da competência técnica de todos aqueles que interagem no acompanhamento vocacional das crianças e dos jovens”.

“Uma educação que não seja auto-realização ou funcionalista mas que eduque as novas gerações para uma cidadania exigente e ativa na luta por um progresso justo e humano.”

Ele pediu ainda o compromisso dos cristãos em “propor uma educação católica, universal e diversificada, que toque as grandes questões da nossa existência”.

Segunda, 08 Novembro 2010 15:04

Hugo e Ricardo de São Vítor

Amados irmãos,

seguimos publicando as catequeses do Papa Bento XVI sobre grandes teólogos, por muitos de nós desconhecidos. A riqueza da Igreja pode ser vista também nos seus pensadores, que com espírito de fé e decididos pela verdade, buscaram dar razão a Revelação Divina. Fazer teologia é também fazer caridade, pois para amar mais a Deus é preciso sempre buscar conhecê-lo melhor.

Hugo e Ricardo de São Vítor

Queridos irmãos e irmãs!

Nestas Audiências de quarta-feira estou a apresentar algumas figuras exemplares de crentes, que se comprometeram a mostrar a concórdia entre a razão e a fé e a testemunhar com a sua vida o anúncio do Evangelho. Hoje, pretendo falar-vos de Hugo e Ricardo de São Vítor. Ambos se situam entre aqueles filósofos e teólogos conhecidos com o nome de Vitorianos,porque viveram e ensinaram na abadia de São Vítor, em Paris, fundada no início do século XII por Guilherme de Chapeaux. O próprio Guilherme foi mestre renomado, que conseguiu dar à sua abadia uma sólida identidade cultural. Em São Vítor, de facto, foi inaugurada uma escola para a formação dos monges, aberta também a estudantes externos, na qual se realizou uma síntese feliz entre os dois modos de fazer teologia, da qual já falei em catequeses precedentes:  isto é, a teologia monástica, orientada sobretudo para a contemplação dos mistérios da fé na Escritura, e a teologia escolástica, que utilizava a razão para procurar perscrutar estes mistérios com métodos inovadores, e criar um sistema teológico.

hugo_s_vitorTemos poucas notícias da vida de Hugo de São Vítor. São incertos a data e o lugar do nascimento:  talvez na Saxónia ou na Flandres. Sabe-se que, tendo chegado a Paris – a capital europeia da cultura desse tempo – transcorreu o resto dos seus anos na abadia de São Vítor, onde foi primeiro discípulo e depois professor. Já antes da morte, no ano de 1141, alcançou uma grande fama e estima, a ponto de ser chamado um "segundo Santo Agostinho":  de facto, como Agostinho ele meditou muito sobre a relação entre fé e razão, entre ciências profanas e teologia. Segundo Hugo de São Vítor, todas as ciências, além de serem úteis para a compreensão das Escrituras, têm um valor em si mesmas e devem ser cultivadas para ampliar o saber do homem, assim como para corresponder ao seu anseio por conhecer a verdade. Esta sadia curiosidade intelectual levou-o a recomendar aos estudantes que jamais limitassem o desejo de aprender e no seu tratado de metodologia do saber e de pedagogia, intitulado significativamente Didascalicon (sobre o ensino), recomendava:  "Aprende de bom grado de todos o que não sabes. Será mais sábio do que todos aquele que terá querido aprender algo de todos. Quem recebe algo de todos, acaba por se tornar mais rico do que todos" (Eruditiones Didascalicae, 3, 14:  PL 176, 774).

A ciência da qual se ocupam os filósofos e os teólogos chamados Vitorianos é de modo particular a teologia, que exige antes de tudo o estudo amoroso da Sagrada Escritura. Com efeito, para conhecer Deus não se pode deixar de começar a partir do que o próprio Deus quis revelar de si mesmo através das Escrituras. Neste sentido, Hugo de São Vítor é um típico representante da teologia monástica, totalmente fundada na exegese bíblica. Para interpretar a Escritura, ele propõe a tradicional articulação patrístico-medieval, ou seja, em primeiro lugar o sentido histórico-literal, depois o alegórico e anagógico, e por fim o moral. Trata-se de quatro dimensões do sentido da Escritura, que também hoje se redescobrem, pelo qual se vê que no texto e na narração oferecida se esconde uma indicação mais profunda:  o fio da fé, que nos conduz para o alto e nos guia nesta terra, ensinando-nos a viver. Contudo, mesmo respeitando estas quatro dimensões do sentido da Escritura, de modo original em relação aos seus contemporâneos, ele insiste – e este é um aspecto novo – sobre a importância do sentido histórico-literal. Por outras palavras, antes de descobrir o valor simbólico, as dimensões mais profundas do texto bíblico, é preciso conhecer e aprofundar o significado da história narrada na Escritura:  caso contrário – adverte com uma comparação eficaz – corre-se o risco de ser como que um estudioso de gramática que ignora o alfabeto. Para quem conhece o sentido da história descrita na Bíblia, as vicissitudes humanas parecem marcadas pela Providência Divina, segundo um seu desígnio bem ordenado. Assim, para Hugo de São Vítor, a história não é o êxito de um destino cego ou de um caso absurdo, como poderia parecer. Ao contrário, na história humana age o Espírito Santo, que suscita um diálogo maravilhoso dos homens com Deus, seu amigo. Esta visão teológica da história põe em evidência a intervenção surpreendente e salvífica de Deus, que realmente entra e age na história, quase se faz parte da nossa história, mas salvaguardando e respeitando sempre a liberdade e a responsabilidade do homem.

Para o nosso autor, o estudo da Sagrada Escritura e do seu significado histórico-literal torna possível a teologia verdadeira, isto é, a ilustração sistemática das verdades, conhecer a sua estrutura, a explicação dos dogmas da fé, que ele apresenta numa síntese sólida no tratado De Sacramentis christianae fidei (Os sacramentos da fé cristã), onde se encontra, entre outras, uma definição de "sacramento" que, aperfeiçoada ulteriormente por outros teólogos, contém aspectos ainda hoje muito interessantes. "O sacramento", escreve ele, "é um elemento corpóreo ou material proposto de modo externo e sensível, que representa com a sua semelhança uma graça invisível e espiritual, a significa, porque para esta finalidade foi instituído, e a contém, porque é capaz de santificar" (9, 2; PL 176, 317). Por um lado a visibilidade no símbolo, a "corporeidade" do dom de Deus, no qual contudo, por outro lado, se esconde a graça divina que provém de uma história:  o próprio Jesus Cristo criou símbolos fundamentais. São portanto três os elementos que concorrem para definir um sacramento, segundo Hugo de São Vítor:  a instituição por parte de Cristo, a comunicação da graça e a analogia entre o elemento visível, o material e o elemento invisível, que são os dons divinos. Trata-se de uma visão muito próxima da sensibilidade contemporânea, porque os sacramentos são apresentados com uma linguagem rica de símbolos e imagens capazes de falar imediatamente ao coração dos homens. É importante também hoje que os animadores litúrgicos, e em particular os sacerdotes, valorizem com sabedoria pastoral os sinais próprios dos ritos sacramentais – esta visibilidade e tangibilidade da Graça – cuidando atentamente da sua catequese, para que cada celebração dos sacramentos seja vivida por todos os fiéis com devoção, intensidade e júbilo espiritual.

Um discípulo digno de Hugo de São Vítor é Ricardo, proveniente da Escócia. Ele foi prior da abadia de São Vítor de 1162 a 1173, ano da sua morte. Também Ricardo, naturalmente, atribui um papel fundamental ao estudo da Bíblia, mas, ao contrário do seu mestre, privilegia o sentido alegórico, o significado simbólico da Escritura com o qual, por exemplo, interpreta a figura veterotestamentária de Benjamim, filho de Jacob, como símbolo da contemplação e vértice da vida espiritual. Ricardo trata este tema em dois textos, Benjamim Menor eBenjamim Maior, nos quais propõe aos fiéis um caminho espiritual que convida antes de tudo a exercer as várias virtudes, aprendendo a disciplinar e a ordenar com a razão os sentimentos e os impulsos interiores afectivos e emotivos. Só quando o homem alcança equilíbrio e maturação humana neste campo, está pronto para aceder à contemplação, que Ricardo define como "um olhar profundo e puro da alma sobre as maravilhas da sabedoria, associado a um sentido estático de estupefacção e admiração" (Benjamim Maior, 1, 4; PL 196, 67).

Por conseguinte, a contemplação é o ponto de chegada, o resultado de um caminho difícil, que exige o diálogo entre a fé e a razão, ou seja – mais uma vez – um discurso teológico. A teologia começa a partir das verdades que são objecto da fé, mas procura aprofundar o conhecimento com o uso da razão, apropriando-se do dom da fé. Esta aplicação do raciocínio à compreensão da fé é praticada de modo convincente na obra-prima de Ricardo, um dos grandes livros da história, o De Trinitate (A Trindade). Nos seis livros que a compõem ele reflecte com perspicácia sobre o Mistério de Deus uno e trino. Segundo o nosso autor, dado que Deus é amor, a única substância divina exige comunicação, oblação e dilecção entre duas Pessoas, o Pai e o Filho, que se encontram entre si num intercâmbio eterno de amor. Mas a perfeição da felicidade e da bondade não admite exclusivismos nem fechamentos:  exige antes a presença eterna de uma terceira Pessoa, o Espírito Santo. O amor trinitário é participativo, concorde e requer superabundância de dilecção, gozo de alegria incessante. Isto é, Ricardo supõe que Deus é amor, analisa a essência do amor, o que está implicado na realidade do amor, chegando assim à Trindade das Pessoas, que é realmente a expressão lógica do facto de que Deus é amor.

Contudo Ricardo está consciente de que o amor, mesmo se nos revela a essência de Deus, nos faz "compreender" o Mistério da Trindade, contudo é uma analogia para falar de um Mistério que supera a mente humana, e – sendo poeta e místico – serve-se também de outras imagens. Por exemplo, compara a divindade com um rio, com uma onda amorosa que brota do Pai, flui e reflui no Filho, para ser depois felizmente difundida no Espírito Santo.

Queridos amigos, autores como Hugo e Ricardo de São Vítor elevam o nosso ânimo à contemplação das realidades divinas. Ao mesmo tempo, a imensa alegria que nos suscitam o pensamento, a admiração e o louvor da Santíssima Trindade, funda e apoia o compromisso concreto de nos inspirarmos neste modelo perfeito de comunhão no amor para construir as nossas relações humanas de todos os dias. A Trindade é deveras comunhão perfeita! Como mudaria o mundo se nas famílias, nas paróquias e em qualquer outra comunidade as relações fossem vividas seguindo sempre o exemplo das três Pessoas divinas, em que cada um vive não só com o outro, mas para o outro e no outro! Recordei isto há alguns meses no Angelus: "Só o amor nos torna felizes, porque vivemos em relação, e vivemos para amar e para ser amados"(L'Oss. Rom., ed. port. de 13 de Junho de 2009). É o amor que realiza este milagre incessante:  como na vida da Santíssima Trindade, a pluralidade recompõe-se em unidade, onde tudo é complacência e júbilo. Com Santo Agostinho, tido em grande honra pelos Vitorianos, também nós podemos exclamar:  Vides Trinitatem, si caritatem vides – contemplas a Trindade, se vês a caridade" (De Trinitate VIII, 8, 12).

Domingo, 24 Outubro 2010 09:30

Ruperto de Deutz - Teólogo do século XII

Amados irmãos,

seguimos publicando as catequeses do Papa Bento XVI sobre grandes teólogos, por muitos de nós desconhecidos. A riqueza da Igreja pode ser vista também nos seus pensadores, que com espírito de fé e decididos pela verdade, buscaram dar razão a Revelação Divina. Fazer teologia é também fazer caridade, pois para amar mais a Deus é preciso sempre buscar conhecê-lo melhor.


Ruperto de Deutz

Queridos irmãos e irmãs!

rupertodedeutzHoje vamos conhecer outro monge beneditino do século XII. O seu nome é Rupert de Deutz, uma cidade situada perto de Colónia, sede de um famoso mosteiro. O próprio Rupert fala da própria vida numa das suas obras mais importantes, intitulada A glória e a honra do Filho do homem, que é um comentário parcial ao Evangelho de Mateus. Ainda criança, ele foi acolhido como "oblato" no mosteiro beneditino de São Lourenço em Liège, segundo o costume da época de confiar um dos filhos à educação dos monges, pretendendo fazer dele um dom a Deus. Rupert amou sempre a vida monástica. Aprendeu muito depressa a língua latina para estudar a Bíblia e para beneficiar das celebrações litúrgicas. Distinguiu-se pela integérrima rectidão moral e pela forte afeição à Sé de São Pedro.

Os seus tempos eram marcados por contrastes entre o Papado e o Império, devidos à chamada "luta das investiduras", com a qual – como mencionei noutras Catequeses – o Papado queria impedir que a nomeação dos Bispos e a prática da sua jurisdição dependessem das autoridades civis, que eram guiadas sobretudo por motivações políticas e económicas, certamente não pastorais. O Bispo de Liège, Otberto, resistia às directrizes do Papa e mandou para o exílio Berengário, abade do mosteiro de São Lourenço, precisamente devido à sua fidelidade ao Pontífice. Neste mosteiro vivia Rupert, o qual não hesitou em seguir o seu Abade no exílio e só quando o Bispo Otberto voltou à comunhão com o Papa regressou a Liège e aceitou tornar-se sacerdote. Até àquele momento, de facto, tinha evitado receber a ordenação sacerdotal de um Bispo em dissenso com o Papa. Rupert ensina-nos que quando surgem controvérsias na Igreja, a referência ao ministério petrino garante fidelidade à sã doutrina e confere serenidade e liberdade interior. Depois da disputa com Otberto, ele teve que abandonar o seu mosteiro mais duas vezes. Não obstante tenha sido absolvido de todas as acusações, Rupert preferiu passar um pouco de tempo em Siegburg, mas dado que as polémicas ainda não tinham cessado quando regressou ao mosteiro de Liège, decidiu estabelecer-se definitivamente na Alemanha. Nomeado abade de Deutz em 1120, ali permaneceu até 1129, ano da sua morte. Deixou o mosteiro só para uma peregrinação a Roma, em 1124.

Escritor fecundo, Rupert deixou numerosíssimas obras, ainda hoje de grande interesse, também porque foi activo em vários e importantes debates teológicos da época. Por exemplo, interveio com determinação na controvérsia eucarística, que em 1077 levara à condenação de Berengário de Tours. Ele tinha feito uma interpretação redutiva da presença de Cristo no Sacramento da Eucaristia, definindo-a apenas simbólica. Na linguagem da Igreja ainda não tinha entrado o termo "transubstanciação", mas Rupert, empregando por vezes expressões audaciosas, fez-se decidido defensor do realismo eucarístico e, sobretudo numa obra intitulada De divinis officcis (Os ofícios divinos), afirmou com determinação a continuidade entre o Corpo do Verbo encarnado de Cristo e o presente nas Espécies eucarísticas do pão e do vinho. Queridos irmãos e irmãs, parece-me que a este ponto devemos pensar inclusive no nosso tempo; existe também hoje o perigo de reduzir o realismo eucarístico, isto é, de considerar a Eucaristia quase como apenas um rito de comunhão, de socialização, esquecendo com muita facilidade que na Eucaristia está realmente presente Cristo ressuscitado – com o seu corpo ressuscitado – o qual se entrega às nossas mãos para nos tirar de nós mesmos, incorporando-nos no seu corpo imortal e para nos guiar assim para a vida nova. Este grande mistério que o Senhor está presente em toda a sua realidade nas Espécies eucarísticas é um mistério que se deve adorar e amar sempre de novo! Gostaria de citar aqui as palavras do Catecismo da Igreja Católica que têm em si o fruto da meditação da fé e da reflexão teológica de dois mil anos:  "O modo da presença de Cristo sob as Espécies eucarísticas é único... No santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos verdadeira, real e substancialmente, o Corpo e o Sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo total:  Deus e homem" (n. 1374). Também Rupert contribuiu, com as suas reflexões, para esta precisa formulação.

Outra controvérsia, na qual o abade de Deutz foi envolvido, refere-se ao problema da conciliação da bondade e da omnipotência de Deus com a existência do mal. Se Deus é omnipotente e bom, como se explica a realidade do mal? De facto, Rupert reagiu à posição tomada pelos mestres da escola teológica de Laon, que com uma série de raciocínios filosóficos distinguiam na vontade de Deus a "aprovação" e a "permissão", concluindo que Deus permite o mal sem o aprovar e, portanto, sem o querer. Rupert, ao contrário, renuncia ao uso da filosofia, que considera simplesmente fiel à narração bíblica. Ele parte da bondade de Deus, da verdade que Deus é sumamente bom e não pode deixar de querer o bem. Assim, indica a origem do mal no próprio homem e no uso errado da liberdade humana. Quando Rupert enfrenta este tema, escreve páginas cheias de inspiração religiosa para louvar a misericórdia infinita do Pai, a paciência e a benevolência de Deus para com o pecador.

Como outros teólogos da Idade Média, também Rupert se perguntava:  por que o Verbo de Deus, o Filho de Deus, se fez homem? Alguns, muitos, respondiam explicando a encarnação do Verbo com a urgência de reparar os pecados do homem. Ao contrário, Rupert, com uma visão cristocêntrica da história da salvação, alarga a perspectiva, e numa sua obra intitulada A glorificação da Trindade defende a posição que a Encarnação, acontecimento central de toda a história, tinha sido prevista desde a eternidade, também independentemente do pecado do homem, para que toda a criação pudesse louvar a Deus Pai e amá-lo como uma única família reunida em volta de Cristo, Filho de Deus. Então ele vê na mulher grávida do Apocalipse toda a história da humanidade, que está orientada para Cristo, assim como a concepção visa o parto, uma perspectiva que será desenvolvida por outros pensadores e valorizada também pela teologia contemporânea, a qual afirma que toda a história do mundo e da humanidade é concepção orientada para o parto de Cristo. Cristo está sempre no centro das explicações exegéticas fornecidas por Rupert nos seus comentários aos Livros da Bíblia, aos quais se dedicou com grande diligência e paixão. Ele reencontra assim a unidade admirável em todos os acontecimentos da história da salvação, da criação à consumação final dos tempos:  "Toda a Escritura", afirma ele, "é um só livro, que tende para a mesma finalidade [o Verbo divino]; que vem de um só Deus e foi escrito por um só Espírito" (De glorificatione Trinitatis et processione Sancti Spiritus I, V PL 169, 18).

Na interpretação da Bíblia, Rupert não se limita a repetir o ensinamento dos Padres, mas mostra uma sua originalidade. Ele, por exemplo, é o primeiro escritor que identificou a esposa do Cântico dos Cânticos com Maria santíssima. Assim o seu comentário a este livro da Escritura revela-se uma espécie de summa mariológica, na qual estão presentes os privilégios e as excelentes virtudes de Maria. Num dos trechos mais inspirados do seu comentário Rupert escreve:  "Ó dilectíssima entre as dilectas, Virgem das virgens, o que louva em ti o teu Filho dilecto, que todo o coro dos anjos exalta? São louvados a simplicidade, a pureza, a inocência, a doutrina, o pudor, a humildade, a integridade da mente e da carne, ou seja, a virgindade incorrupta" (In Canticum Canticorum 4, 1-6, ccl 26, pp. 69-70). A interpretação mariana do Cântico de Rupert é um óptimo exemplo da sintonia entre liturgia e teologia. De facto, vários trechos deste Livro bíblico já eram usados nas celebrações litúrgicas das festas marianas.

Além disso, Rupert ocupou-se da inserção da sua doutrina mariológica na eclesiológica. Por outras palavras, ele vê em Maria Santíssima a parte mais santa da Igreja inteira. Eis por que o meu venerado predecessor, Papa Paulo VI, no discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II, ao proclamar solenemente Maria Mãe da Igreja, citou precisamente uma proposição tirada das obras de Rupert, que define Maria portio maxima, portio optima a parte mais excelsa, a melhor parte da Igreja (cf. In Apocalypsem 1.7, PL 169, 1043).

Queridos amigos, destas rápidas menções apercebemo-nos de que Rupert foi um teólogo fervoroso, dotado de grande profundidade. Como todos os representantes da teologia monástica, ele soube conjugar o estudo racional dos mistérios da fé com a oração e com a contemplação, considerada o vértice de qualquer conhecimento de Deus. Ele mesmo fala algumas vezes das suas experiências místicas, como quando confia a alegria inefável de ter sentido a presença do Senhor:  "Naquele breve momento – afirma ele – experimentei quanto é verdadeiro o que Ele mesmo diz:  Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração" (De gloria et honore Filii hominis. Super Matthaeum 12, PL 168, 1601). Também nós podemos, cada um a seu modo, encontrar o Senhor Jesus, que incessantemente acompanha o nosso caminho, se torna presente no Pão eucarístico e na sua Palavra para a nossa salvação.

Segunda, 11 Outubro 2010 10:38

João de Salisbury

Vamos seguir publicando algumas catequeses do Papa Bento XVI sobre teólogos.

Pe. Eduardo Peters


João de Salisbury

Caros irmãos e irmãs

Hoje vamos conhecer a figura de João de Salisbury, que pertencia a uma das escolas filosóficas e teológicas mais importantes da Idade Média, a da Catedral de Chartres, na França. Também ele, como os teólogos de que falei nas semanas passadas, nos ajuda a compreender como a fé, em harmonia com as justas aspirações da razão, impele o pensamento para a verdade revelada, na qual se encontra o verdadeiro bem do homem.

INGLATERRA-SALISBURYJoão nasceu em Salisbury, na Inglaterra, entre 1100 e 1120. Lendo as suas obras e sobretudo o seu rico epistolário, tomamos conhecimento dos factos mais importantes da sua vida. Durante cerca de doze anos, de 1136 a 1148, ele dedicou-se aos estudos, frequentando as escolas mais qualificadas da época, nas quais ouviu as lições de mestres famosos. Foi a Paris e depois a Chartres, o ambiente que marcou em maior medida a sua formação e do qual assimilou a grande abertura cultural, o interesse pelos problemas especulativos e o apreço pela literatura. Como muitas vezes acontecia nessa época, os estudantes mais brilhantes eram convidados por prelados e soberanos, para ser seus estreitos colaboradores. Isto aconteceu também com João de Salisbury, que por um seu grande amigo, Bernardo de Claraval, foi apresentado a Teobaldo, Arcebispo de Canterbury – sede primacial da Inglaterra – que de bom grado o acolheu no seu clero. Por onze anos, de 1150 a 1161, João foi secretário e capelão do idoso Arcebispo. Com zelo incansável, enquanto continuava a dedicar-se ao estudo, ele desempenhou uma actividade diplomática intensa, visitando dez vezes a Itália, com a finalidade de manter as relações do Reino e da Igreja da Inglaterra com o Romano Pontífice. Além disso, naqueles anos o Papa era Adriano IV, um inglês que teve uma forte amizade com João de Salisbury. Nos anos seguintes à morte de Adriano IV, ocorrida em 1159, na Inglaterra criou-se uma situação de grave tensão entre a Igreja e o Reino. Com efeito, o rei Henrique ii tencionava afirmar a sua autoridade sobre a vida interna da Igrea, limitando a sua liberdade. Esta tomada de posição suscitou as reacções de João de Salisbury, e principalmente a resistência corajosa do sucessor de Teobaldo na cátedra episcopal de Canterbury, S. Tomás Becket, que por este motivo foi para o exílio, na França. João de Salisbury acompanhou-o e permaneceu ao seu serviço, trabalhando sempre por uma reconciliação. Em 1170, quando quer João quer Tomás Becket já tinham voltado para a Inglaterra, este último foi atacado e assassinado no interior da sua catedral. Morreu como mártir e como tal foi imediatamente venerado pelo povo. João continuou a servir fielmente também o sucessor de Tomás, até ser eleito Bispo de Chartres, onde permaneceu de 1176 a 1180, ano da sua morte.

Das obras de João de Salisbury gostaria de indicar duas, que são consideradas as suas obras-primas, designadas elegantemente com os títulos gregos de Metaloghicón (Em defesa da lógica) e Polycráticus (O homem de Governo). Na primeira obra ele – não sem a requintada ironia que caracterizava muitos homens cultos – rejeitou a posição daqueles que tinham uma concepção redutiva da cultura, considerada como eloquência vazia, palavras inúteis. João, por sua vez, elogia a cultura, a filosofia autêntica, ou seja o encontro entre pensamento forte e comunicação, palavra eficaz. Ele escreve: "De facto, como não é só temerária, mas também eloquência cega não iluminada pela razão, assim a sabedoria que não beneficia do uso da palavra é não só frágil, mas de certo modo incompleta: com efeito, embora por vezes uma sabedoria sem palavra possa ser benéfica no confronto da própria consciência, raramente e pouco beneficia a sociedade" (Metaloghicón 1, I, PL 199, 327). Um ensinamento muito actual. Hoje, aquela que João definia "eloquência", ou seja a possibilidade de comunicar com instrumentos cada vez mais elaborados e difundidos, multiplicou-se enormemente. Todavia, é ainda mais urgente a necessidade de transmitir mensagens dotadas de "sabedoria", ou seja inspiradas na verdade, na bondade e na beleza. Trata-se de uma grande responsabilidade, que interpela em particular as pessoas que trabalham no âmbito multiforme e complexo da cultura, da comunicação, dos mass media. E este é um âmbito em que se pode anunciar o Evangelho com vigor missionário.

No Metaloghicón, João enfrenta os problemas da lógica, na sua época objecto de grande interesse, e formula-se uma interrogação fundamental: o que pode conhecer a razão humana? Até que ponto ela pode corresponder àquela aspiração que existe em cada homem, ou seja a busca da verdade? João de Salisbury adopta uma posição moderada, baseada no ensinamento de alguns tratados de Aristóteles e de Cícero. Na sua opinião, em geral a razão humana alcança conhecimentos que não são inquestionáveis, mas prováveis e opináveis. O conhecimento humano – esta é a sua conclusão – é imperfeito, porque está sujeito à finitude, ao limite do homem. Porém, ela cresce e aperfeiçoa-se graças à experiência e à elaboração de raciocínios correctos e coerentes, capazes de estabelecer relações entre os conceitos e a realidade, graças ao debate, ao confronto e ao saber que se enriquece de geração em geração. Somente em Deus existe uma ciência perfeita, que é comunicada ao homem, pelo menos parcialmente, por meio da Revelação acolhida na fé, pelo que a ciência da fé, a teologia, alarga as potencialidades da razão e faz progredir com humildade no conhecimento dos mistérios de Deus.

O crente e o teólogo, que aprofundam o tesouro da fé, abrem-se também a um saber prático, que guia as acções quotidianas, ou seja, para as leis morais e o exercício das virtudes. João de Salisbury escreve: "A clemência de Deus concedeu-nos a sua lei, que estabelece as coisas que nos é útil conhecer, e que indica quanto é lícito saber de Deus e quanto é justo indagar... Com efeito, nesta lei explicita-se e torna-se evidente a vontade de Deus, a fim de que cada um de nós saiba o que para ele é necessário fazer" (Metaloghicón 4, 41, PL 199, 944-945). Segundo João de Salisbury, existe também uma verdade objectiva e imutável, cuja origem está em Deus, acessível à razão humana e que diz respeito ao agir prático e social. Trata-se de um direito natural, no qual as leis humanas e as autoridades políticas e religiosas devem inspirar-se, a fim de poder promover o bem comum. Esta lei natural é caracterizada por uma propriedade à qual João chama "equidade", ou seja a atribuição dos seus direitos a cada pessoa. Dela derivam preceitos que são legítimos em todos os povos, e que em qualquer caso não podem ser ab-rogados. Esta é a lei central do Polycráticus, o tratado de filosofia e de teologia política, em que João de Salisbury, reflecte sobre as condições que tornam a acção dos governantes justa e permitida.

Enquanto outros argumentos enfrentados nesta obra estão ligados às circunstâncias históricas em que ela foi composta, o tema da relação entre lei natural e ordenamento jurídico-positivo, mediado pela equidade, é ainda hoje de grande importância. Com efeito, no nosso tempo, sobretudo em alguns países, assistimos a uma separação preocupante entre a razão, que tem a tarefa de descobrir os valores éticos ligados à dignidade da pessoa humana, e a liberdade, que tem a responsabilidade de os acolher e promover. Talvez João de Salisbury nos recorde hoje que são conformes com a realidade somente as leis que tutelam a sacralidade da vida humana e rejeitam a liceidade do aborto, da eutanásia e das experiências genéticas desenvoltas, aquelas leis que respeitam a dignidade do matrimónio entre um homem e uma mulher, que se inspiram numa laicidade correcta do Estado – laicidade que contudo comporta sempre a salvaguarda da liberdade religiosa – e que perseguem a subsidiaridade e a solidariedade nos planos nacional e internacional. Caso contrário, acabaria por se instaurar aquela que João de Salisbury define a "tirania do príncipe" ou, nós diríamos, "a ditadura do relativismo": um relativismo que, como eu recordava há alguns anos, "nada reconhece como definitivo e deixa como última medida só o próprio eu e os seus desejos" (Missa pro eligendo Romano Pontifice, Homilia, ed. port. de "L'Osservatore Romano" de 23 de Abril de 2005).

Na minha Encíclica mais recente, Caritas in veritate, dirigindo-me aos homens de boa vontade, que se comprometem a fim de que a acção social e política nunca seja separada da verdade objectiva sobre o homem e sobre a sua dignidade, escrevi: "A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é – nem pode ser – o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor. Este princípio é muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser apenas produtos humanos; a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e constitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido" (n. 52). Temos que procurar e acolher este plano que nos precede, esta verdade do ser, para que nasça a justiça, mas só podemos encontrá-lo e acolhê-lo com um coração, uma vontade, uma razão purificados na luz de Deus.

bentoxviO Santo Padre, Papa Bento XVI, pronunciou algumas catequeses apresentando grandes teólogos da Igreja, procurando recuperar para nós pensadores eclesiásticos importantes. Nas próximas semanas, estaremos publicando estas catequeses no nosso blog.

Pe. Eduardo Peters

 

Pedro Lombardo

Queridos irmãos e irmãs!

Nesta última audiência do ano gostaria de vos falar de Pedro Lombardo: um teólogo que viveu no século XII, que gozou de grande fama, porque uma sua obra, intitulada Sentenças, foi adoptada como manual de teologia por muitos séculos.

Quem era portanto Pedro Lombardo? Mesmo se as notícias sobre a vida são escassas, podemos contudo reconstruir as linhas essenciais da sua biografia. Nasceu entre os séculos XI e XII, nas redondezas de Novara, no Norte da Itália, num território outrora pertencente aos Longobardos: precisamente por isto foi-lhe dado o apelativo "Lombardo". Ele pertencia a uma família de condições modestas, como podemos deduzir da carta de apresentação que Bernardo de Claraval escreveu a Gilduíno, superior da abadia de São Vítor em Paris, para lhe pedir que hospedasse gratuitamente Pedro, que desejava ir àquela cidade por motivos de estudo. De facto, também na Idade Média não só os nobres ou os ricos podiam estudar e desempenhar papéis importantes na vida eclesial e social, mas também pessoas com origens humildes, como por exemplo Gregório VII, o Papa que enfrentou o Imperador Henrique IV, ou Maurício de Sully, o Arcebispo de Paris que mandou construir Notre-Dame e que era filho de um pobre agricultor.

Pedro Lombardo iniciou os seus estudos em Bolonha, depois foi a Reims, e por fim a Paris. A partir de 1140 ensinou na prestigiosa escola de Notre-Dame. Estimado e apreciado como teólogo, oito anos mais tarde foi encarregado pelo Papa Eugénio III de examinar as doutrinas de Gilberto Porretano, que suscitavam muitos debates, porque eram consideradas não totalmente ortodoxas. Tendo-se tornado sacerdote, foi nomeado Bispo de Paris em 1159, um ano antes da sua morte, em 1160.

Como todos os mestres de teologia do seu tempo, também Pedro escreveu discursos e textos de comentário à Sagrada Escritura. A sua obra-prima é constituída pelos quatro livros das Sentenças. Trata-se de um texto nascido e finalizado para o ensino. Segundo o método teológico em uso naqueles tempos, era necessário antes de tudo conhecer, estudar e comentar o pensamento dos Padres da Igreja e de outros escritores considerados influentes. Por isso, Pedro recolheu uma documentação muito ampla, constituída principalmente pelo ensinamento dos grandes Padres latinos, sobretudo de Santo Agostinho, e aberta à contribuição de teólogos seus contemporâneos. Entre outras, ele utilizou também uma obra enciclopédica de teologia grega, há pouco tempo conhecida no Ocidente: A fé ortodoxa, composta por São João Damasceno. O grande mérito de Pedro Lombardo é ter organizado todo o material, que reuniu e seleccionou com cuidado, num quadro sistemático e harmonioso. De facto, uma das características da teologia é organizar de modo unitário e ordenado o património da fé. Por conseguinte, ele distribuiu as sentenças, ou seja, as fontes patrísticas sobre os vários argumentos, em quatro livros. No primeiro trata-se de Deus e do mistério trinitário; no segundo, da obra da criação, do pecado e da Graça; no terceiro, do Mistério da Encarnação e da obra da Redenção, com uma ampla exposição sobre as virtudes. O quarto livro é dedicado aos sacramentos e às realidades últimas, as da vida eterna, ou Novíssimos. A visão de conjunto que se obtém disto inclui quase todas as verdades da fé católica. Este olhar sintético e a apresentação clara, ordenada, esquemática e sempre coerente, explicam o sucesso extraordinário das Sentenças de Pedro Lombardo. Elas permitiam uma aprendizagem certa por parte dos estudantes, e um amplo espaço de aprofundamento para os mestres, os professores que delas se serviam. Um teólogo franciscano, Alexandre de Hales, que viveu uma geração depois de Pedro, introduziu nas Sentenças uma subdivisão, que tornou mais fácil a sua consulta e estudo. Também os maiores teólogos do século XIII, Alberto Magno, Boaventura de Bagnoregio e Tomás de Aquino, iniciaram a sua actividade académica comentando os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo, enriquecendo-as com as suas reflexões. O texto de Lombardo foi o livro usado por todas as escolas de teologia, até ao século XVI.

Desejo ressaltar como a apresentação orgânica da fé é uma exigência irrenunciável. De facto, cada uma das verdades da fé se iluminam reciprocamente e, numa sua visão total e unitária, sobressai a harmonia do plano de salvação de Deus e a centralidade do Mistério de Cristo. A exemplo de Pedro Lombardo, convido todos os teólogos e os sacerdotes a ter sempre presente a visão total da doutrina cristã contra os riscos actuais de fragmentação e da desvalorização de cada uma das verdades. O Catecismo da Igreja Católica, assim como o Compêndio do mesmo Catecismo, oferecem-nos precisamente este quadro completo da Revelação cristã, que se deve acolher com fé e gratidão. Gostaria de encorajar portanto também cada um dos fiéis e comunidades cristãs a aproveitar estes instrumentos para conhecer e aprofundar os conteúdos da nossa fé. Assim ela há-de parecer-nos uma maravilhosa sinfonia, que nos fala de Deus e do seu amor e que solicita a nossa adesão firme e resposta laboriosa.

Para ter uma ideia do interesse que ainda hoje a leitura das Sentenças de Pedro Lombardo pode suscitar, proponho dois exemplos. Inspirando-se no comentário de Santo Agostinho ao livro do Génesis, Pedro interroga-se acerca do motivo pelo qual a criação da mulher foi realizada a partir da costela de Adão e não da sua cabeça ou dos seus pés. E explica: "Era formada não uma dominadora nem sequer uma escrava do homem, mas uma sua companheira" (Sentenças 3, 18, 3). Depois, sempre com base no ensinamento patrístico, acrescenta: "Nesta acção está representado o mistério de Cristo e da Igreja. De facto, assim como a mulher foi formada da costela de Adão enquanto ele dormia, assim a Igreja nasceu dos sacramentos que iniciaram a brotar do lado de Cristo que dormia na Cruz, ou seja, do sangue e da água, com que somos remidos da pena e purificados da culpa" (Sentenças 3, 18, 4). São reflexões profundas e válidas ainda hoje, quando a teologia e a espiritualidade do matrimónio cristão aprofundaram muito a analogia com a relação esponsal entre Cristo e a sua Igreja.

Noutra passagem da sua obra principal, Pedro Lombardo, falando sobre os merecimentos de Cristo, interroga-se: "Por que razão, então [Cristo] quis padecer e morrer, se as suas virtudes já eram suficientes para lhe obter todos os méritos?". A sua resposta é incisiva e eficaz: "Para ti, não para si mesmo!". Depois prossegue com outra pergunta e outra resposta, que parecem reproduzir os debates que eram feitos durante as lições dos mestres de teologia da Idade Média: "E em que sentido ele sofreu e morreu por mim? Para que a sua paixão e a sua morte fossem para ti exemplo e causa. Exemplo de virtude e de humildade, causa de glória e de liberdade; exemplo dado por Deus obediente até à morte; causa da tua libertação e da tua bem-aventurança" (Sentenças 3, 18, 5).

Entre os contributos mais importantes oferecidos por Pedro Lombardo para a história da teologia, gostaria de recordar a sua análise sobre os sacramentos, dos quais deu uma descrição diria definitiva: "É chamado sacramento em sentido próprio aquilo que é sinal da graça de Deus e forma visível da graça invisível, de tal modo que traz a sua imagem e é a sua causa" (4, 1, 4). Com esta definição Pedro Lombardo colhe a essência dos sacramentos: eles são causa da graça, têm a capacidade de continuar realmente a vida divina. Os teólogos sucessivos não abandonarão esta visão e utilizarão também a distinção entre elemento material e elemento formal, introduzida pelo "Mestre das Sentenças", como foi chamado Pedro Lombardo. O elemento material é a realidade sensível e visível, o formal são as palavras pronunciadas pelo ministro. Ambos são essenciais para uma celebração completa e válida dos sacramentos: a matéria, a realidade com a qual o Senhor nos toca visivelmente e a palavra que dá o significado espiritual. No Baptismo, por exemplo, o elemento material é a água que se derrama sobre a cabeça da criança e o elemento formal são as palavras: "Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". Além disso, Lombardo esclareceu que só os sacramentos transmitem objetivamente a graça divina e que são sete: o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio (cf. Sentenças 4, 2, 1).

Queridos irmãos e irmãs, é importante reconhecer como é preciosa e indispensável para cada cristão a vida sacramental, na qual o Senhor através desta matéria, na comunidade da Igreja, nos toca e nos transforma. Como recita o Catecismo da Igreja Católica, os sacramentos são "forças que saem do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, acções do Espírito Santo" (n. 1116). Neste Ano sacerdotal, que estamos a celebrar, exorto os sacerdotes, sobretudo os ministros que curam as almas, a terem eles mesmos primeiro, uma intensa vida sacramental para servirem de ajuda aos fiéis. A celebração dos sacramentos distinga-se por dignidade e decoro, favoreça o recolhimento pessoal e a participação comunitária, o sentido da presença de Deus e o ardor missionário. Os sacramentos são o grande tesouro da Igreja e a cada um de nós compete a tarefa de os celebrar com fruto espiritual. Neles, um acontecimento sempre surpreendente toca a nossa vida: Cristo, através dos sinais visíveis, vem ao nosso encontro, purifica-nos, transforma-nos e torna-nos partícipes da sua amizade divina.

Queridos amigos, chegamos ao fim deste ano e estamos às portas do novo. Desejo-vos que a amizade de Nosso Senhor Jesus Cristo vos acompanhe todos os dias deste ano que está para iniciar. Possa esta amizade de Cristo ser nossa luz e guia, ajudando-nos a ser homens de paz, da sua paz. Bom ano a todos vós!

Audiência de 30 de dezembro de 2009.

Fonte: www.vatican.va

Página 99 de 104